REVISTA CRIAÇÃO
 

O JORNALISMO, A INTERNET E AS “COMUNIDADES IMAGINADAS”

Semana passada o jornalista Alberto Dinis fez no OI um profundo questionamento sobre o papel dos jornais e sobre o 7º Congresso Brasileiro de Jornais. Disse o jornalista:

“Nos dias 18 e 10 de agosto, em São Paulo, testemunhamos um momento crucial na história do jornalismo pátrio quando, por vontade própria, o seu segmento mais poderoso resolveu praticar um haraquiri coletivo – deixou de ser serviço público para converter-se em indústria. E, como indústria, admitir sua inevitável e recorrente obsolescência.” http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=500JDB001

Para enfatizar a importância dos jornais e a irrelevância da Internet Dines fez a seguinte comparação:

“Convém lembrar que a internet americana, apesar da sua pujança, não conseguiu nem jamais conseguirá tirar um presidente da Casa Branca como aconteceu com Richard Nixon. A prova está em George W. Bush, que ganhou a primeira eleição no tapetão e no segundo mandato está levando a maior superpotência para o brejo.
Quando a imprensa era instituição, jornais também deveriam ser lucrativos, mas nos intervalos entre balancetes e balanços havia um compromisso com o interesse público.”

A preocupação do venerando jornalista é razoável. Sua análise também. Mesmo assim tomo a liberdade de retornar ao tema sob um outro ângulo de vista.

Em sua obra COMUNIDADES IMAGINADAS (Companhia as Letras,, 2008), Benedict Anderson, afirma que:

O que tornou possível imaginar as novas comunidades, num sentido positivo, foi uma interação mais ou menos casual, porém explosiva, entre um modo de produção e de relações de produção (o capitalismo), uma tecnologia de comunicação (a imprensa) e a fatalidade da diversidade lingüística humana.”

Como se vê, Beneditc defendeu a tese de que foi a reprodução industrial de textos (inclusive os jornalísticos) que possibilitou a criação das modernas nacionalidades. E também dos nocivos nacionalismos - é preciso sempre ressaltar esta mácula do jornalismo italiano e alemão do princípio do século XX.

Se partirmos da tese de Benedict, somos levados a indagar qual é o destino de uma comunidade imaginada (ou de uma nacionalidade) depois que a mesma foi criada e se perpetuou através da continua reprodução mecânica de textos. Também é interessante questionar a quem pertence a “comunidade imaginada” à medida que se reproduz através das gerações de homens.

As nacionalidades estão em constante mutação. Continuidade e descontinuidade se misturam em todas as sociedades modernas à medida que o tempo passa. Hoje há menos do Brasil da década de 1960 do que sonhariam ou gostariam os militares que deram o golpe de 1964. Mesmo assim algumas distorções foram preservadas, como a excessiva concentração de renda (vide dados do IPEA). Num cenário normal, uma sociedade pode demorar bastante para perder algumas características. Mas saltos acontecem. Foi o que ocorreu da década de 1930 à década de 1940, em que o Brasil deixou de ser esmagadoramente agrário.

A tendência das “comunidades imaginadas” é continuar existindo. Mas mesmo que durem dezenas ou centenas de gerações, nem mesmo elas são eternas. No passado, a guerra já fez nacionalidades desaparecerem. Na atualidade, em virtude do desenvolvimento da tecnologia militar, uma “comunidade imaginada” pode ser literalmente excluída da história em alguns minutos (Hiroshima e Nagasaki foram aperitivos em relação ao que pode ocorrer se as potências nucleares entrarem em guerra).

No melhor dos mundos as nacionalidades que existem continuarão a existir e a construir uma “comunidade imaginada global”. Nesse contexto, vale a pena retomar a pergunta acerca:

Quem são os proprietários das “comunidades imaginadas”?

O último século foi bastante rico em respostas a esta questão. Os comunistas se comportaram como se o Estado fosse o dono das “comunidades imaginadas”, mas como o próprio Estado era controlado pelo partido único as “comunidades imaginadas” acabaram se transformando em extensões da personalidade de seus líderes (Mao Zedong na China, Josef Stalin na Rússia, por exemplo). Nas democracias, a sociedades se comportaram como se suas “comunidades imaginadas” fossem de todos e de ninguém e sobreviveram à insanidade de duas guerras mundiais. Nos regimes fascistas e nazistas os donos da indústria de reprodução de textos deram as cartas como se pudessem criar o que existe decretar o que não poderia existir.

No âmago do texto do texto do Alberto Dines há uma pergunta bastante perturbadora:

Quem são os proprietários da “comunidade imaginada” a que pertencemos e que destino eles darão à mesma?

No Brasil, muito embora dependa dos anunciantes públicos, a imprensa é privada. Caso vise exclusivamente o lucro e se recuse a cumprir qualquer papel social ou público, nossa “comunidade imaginada”, que adotou formalmente a proposta constitucional de ser uma democracia moderna e inclusiva, será qualquer outra coisa menos democrática. Os donos das indústrias jornalísticas poderiam, mas nunca vão responder a questão sugerida por Alberto Dines. Eles não têm interesse em responder por que projetam outra “comunidade imaginada” ou não responderão em virtude de sentirem vergonha ou medo das conseqüências de uma resposta?

Dines sugeriu que a internet não tem o mesmo poder que o jornalismo tradicional. Neste ponto acho que ele cometeu um equívoco de interpretação ou projetou os desejos que resultam de sua experiência profissional na realidade. O jornalismo americano precisou amadurecer quase um século para chegar ao ponto de derrubar Nixon. E apesar de sua maturidade, o jornalismo americano recuou ao século XIX quando permitiu que Bush II fosse levado para a Casa Branca. A internet tem apenas duas décadas e, em razão de suas características, pode precisar de menos tempo para chegar ao ponto em que o jornalismo tradicional chegou. Além disto, ainda não está muito claro o que a internet pode fazer pelas “comunidades imaginadas” a que pertencemos (ou que podemos vir a criar no futuro).

Fábio de Oliveira Ribeiro

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