REVISTA CRIAÇÃO

OLGA

Recentemente estreou nos cinemas o filme OLGA. A produção é tão cuidadosa que o mesmo nem parece ter sido filmado no Brasil. Não que os brasileiros não tenham aprendido a fazer cinema. Já aprenderem e há muito tempo. É que as cenas filmadas no Rio de Janeiro realmente parecem ter sido locadas no Velho Continente. O que mais surpreende no filme é a capacidade que nosso país tem de construir histórias dolorosas.

A história de Olga Benário e Luís Carlos Prestes resume bem as contradições nacionais. Vivemos num país rico em recursos naturais, mas incapaz de produzir lideranças autênticas. Por isto, nossos líderes importam ideologias, que pretendem impor à população através de golpes de estado.

Na década de 30 o Brasil foi disputado por Getulio e Prestes. O primeiro veladamente nazi-fascista, o segundo, abertamente comunista. Ambos eram militares e golpistas. Ambos se deixaram influenciar por ideologias européias. Sem a quartelada de Prestes em 1935, Getúlio não teria condições de impor à nação o Estado Novo, em 1937.

O Brasil é realmente um país muito atípico. Nossos referenciais ideológicos são importados. E os principais líderes desse país são pouco ou nada autênticos. Alguns de nossos heróis e heroínas nem brasileiros são. E sim, estrangeiros, como Olga. Infelizmente os "tristes trópicos" (tão bem retratados pelo francês, LÉVI-STRAUSS) ainda não produziram líderes autênticos. Os que eventualmente despontaram foram eliminados ou transformados em cordeirinhos, como Lula, por exemplo.

Os detalhes de época no filme são realmente convincentes. OLGA convence pela ambientação e pelo tratamento dispensado a dois vilões. Dois vilões que são comumente retratados como heróis:

FILINTO MÜLLER, o ladrãozinho da coluna Prestes que se tornou chefe da polícia política getulista, e

GETULIO, o general autoritário e golpista, que fundou um estado de orientação fascista, esmagou a oposição à bala em São Paulo (1932), no nordeste e no Rio de Janeiro (1935), transformou a Alemanha hitlerista no maior parceiro comercial do Brasil e que entregou Olga aos nazistas em apreço ao Führer.

A personagem que dá nome ao filme também foi muito bem construída. A princípio, Olga é a militante. Com o tempo se transforma na mulher-soldado, fria, calculista, capacitada para realizar missões militares com eficiência. Mas é nas mãos de Prestes que ela se transforma numa mulher carinhosa e apaixonada.

Prestes, por sua vez, deixa a desejar. Ele foi retratado na tela grande como um idealista romântico e sentimental. Parece-me que o personagem não faz jus ao homem embrutecido pela guerra. Em plena crise, o soldado que combateu e venceu o Exército Brasileiro em diversas oportunidades, durante a marcha da coluna, troca as armas pela máquina de costura. E veste sua amada como se fosse um estilista tupiniquim...

Vale a pena conferir.


Fábio de Oliveira Ribeiro
REVISÃO:- Ivete Tôrres Dorneles

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