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OS EUS VIAJANTES: Introdução A viagem sempre foi tema afim ao imaginário europeu e, conseqüentemente
ao imaginário ocidental. Narra uma infindável viagem
uma das mais caras matrizes literárias e culturais dos europeus
– a Odisséia. Permeiam o Antigo Testamento histórias
de viagens, como aquela que fez o povo hebreu pelo deserto durante
quarenta anos, guiado por Moisés, diretamente orientado por
Deus. Viajou Jonas na barriga de uma baleia; viajou José, filho
de Jacó, ao Egito. O mesmo Egito recebeu José, o carpinteiro,
e Maria com seu filho, em fuga das tropas de Herodes. A fuga imóvel Há uma nostalgia, um sentimento de uma indefinível perda em poemas como Impressões do Crepúsculo, que fala do “longínquo dobre de Outros Sinos” (Pessoa, 1976. p. 108). Parece um sino situado em um outro mundo, fora do tempo, e por isso, inalcançável em uma comum viagem. Talvez o seja apenas pela viagem de que fala Ricardo Reis: Talvez que já nos toque Essa viagem, o único definitivo na vida, em que tudo é
transitório, precário, apenas um fugaz minuto roubado
à Eternidade que se conclui quando “com mão mortal
elevo à mortal boca / em frágil taça o passageiro
vinho”, diz o poeta. De Apolo o carro rodou pra fora
Que importa àquele a quem já nada importa Se cada ano com a primavera Essa ataraxia fugitiva (NOTA 1) é a resposta que o poeta Reis
oferece à vida que, para ele, só metaforicamente pode
ser uma viagem. Pois deslocar-se seria ver o mundo e nele arriscar-se
a envolver. Viajar implicaria em expor-se a encontrar uma Lídia
com quem enlaçar as mãos perigando não mais desenlaçá-las.
E isso não pode tolerar quem só pelo intelecto quer
comprometer-se com a vida. “Nada se sabe, tudo se imagina”
(p. 277), diz o poeta, o que pode ser traduzido por “Nada se
vive, tudo se imagina”. Parece ser esse o mote desse poeta da
recusa à vida que escreve odes ao mínimo viver, nos
quais nada é vida verdadeira, apenas manifestação
de fastio intelectual. Aqui, neste misérrimo desterro Datado de 1933, esse é portanto um poema “brasileiro”, mas o desterro de que fala é outro; é o desterro de um poeta, como disse Álvaro de Campos (NOTA 2) , cuja emoção é “demasiadamente voltada para o ponto cardeal chamado Ricardo Reis.” (p. 251) Um poeta que recusa o mundo, não tem para onde viajar, nem mesmo quando fugitivo. A margem que não há O primeiro poema atribuído a Álvaro de Campos, “Opiário, datado de 1913, fala de uma viagem. Trata-se de um regresso, após ter estado no Oriente – “Não chegues a Port Said, navio de ferro!”. (p. 302) Na saída para o Mediterrâneo, Port Said é destino de quem, navegando pelo Suez, busca o Ocidente.”Volto à Europa descontente” (p. 303), “Esta vida de bordo há de matar-me” (p. 303), desatina-se o poeta. A viagem ao Oriente não foi o suficiente para satisfazer a ânsia do cosmopolita poeta decadentista nascido em Tavira, terra de Algarves, onde teria existido a Escola de Sagres de que falam os mitos e de onde partiram caravelas que sondaram o mundo e ampliaram suas fronteiras. Viveu na Escócia, visitou a Irlanda. Por isso, a escolha: E eu vou buscar no ópio que consola Para o cerebral Álvaro de Campos em sua fase decadentista parecem poucas as sensações provocadas pela viagem. Tomado pelo tédio busca no ópio geografias que o navio não pode alcançar. Não posso estar em parte alguma. A minha Viagens diferentes empreenderá posteriormente esse Álvaro
de Campos (NOTA 3) . Na Ode Marítima, solitário entre
a multidão da grande cidade, o poeta chega ao cais e vê
“pequeno, negro e claro, um paquete vem entrando” (p.
315). A partir dessa visão, o poeta viaja no tempo e no espaço,
recupera fugazmente a própria infância. Eu acho que não vale a pena ter Não vale a pena viajar, pois nada há para ser visto. A alma entediada e contraditória desse judeu errante quer vagar, mas corpo preguiçoso quer ficar. Viaja então pelo pensamento mais que pelos comboios e navios. Só há um modo de viver e tudo é igual. Diante dessa constatação esfacela-se o instinto desse viajante que parece só querer mesmo, em todas as viagens, a sua infância de volta. É a entediante recusa à partida, mesmo quando ela ocorre: Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão Mesmo quando do outro lado da viagem há alguém por cuja presença o poeta parece ansiar, a decisão da viagem é adiada. Indefinidamente adiada, pois mesmo partindo, ele continuará adiando. Viver, para Álvaro de Campos, é adiar. Imagina esse estranho poeta sensacionista de tão poucas sensações que “...há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.” (p. 349) Por que não emigra então? Por que vivendo em Glasgow volta a Lisboa? Talvez porque como diz ele: fui educado pela Imaginação, Pode estar aí a última e definitiva explicação. Educado pela imaginação e pela mão dela viajando, os lugares em que ele se encontra nunca são os lugares imaginados. Sempre que alcançados, deixam de ser imaginação e, para esse poeta do pensamento a realidade só pode ser mesmo o tédio. Daí o constante apelo à constante partida, muitas vezes, gerador da estranheza provocada pela poética desse ser que, viajante, permanece imóvel e, imóvel, torna viagem o estático: Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, Sobre o conflito que o poeta estabelece entre Realidade e Imaginação talvez seja interessante uma aproximação entre os poemas Opiário e Ode Marítima. No primeiro, o poeta entedia-se com o pouco que lhe oferece a viagem que faz ao Oriente e por isso busca um “Oriente ao oriente do Oriente (NOTA 5) ” ao qual até mesmo a imaginação solitariamente não parece capaz de conduzi-lo. Por isso, o recurso ao atalho oferecido pelo ópio que, porém, não lhe abre novas portas: oferece-lhe apenas o tédio, já velho companheiro. No segundo, o poeta empreende uma exaltada viagem imaginária que supera tempo e espaço e o transpõe a um mundo, onde os limites parecem ser a piedade por aqueles a quem o poeta sonha causar dor, a infância perdida que invade o poema reclamando seu latifúndio de fantasia e o tédio, esse eterno companheiro de quem substitui a vida pelo pensamento sobre a vida. “Todo esse tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo” (p. 330), confessa ele. “Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio” (p. 336), declara; “E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia” (p. 359), conclui o poeta para quem a vida é uma margem inalcançável, quiçá inexistente. Por onde viaja o Mestre? “Vou onde o vento me leva” (p.2452), diz Caeiro, mas
o vento não o leva muito longe. Não pode o vento levar
ao mundo quem não o quer. Há poucos registros de movimentos
de Alberto Caeiro. Álvaro de Campos relata que o encontrou
pela primeira vez na casa de um primo (de Caeiro); relata também
uma conversa que tiveram certa vez em Lisboa, o que faz supor que
o Mestre lá esteve outras vezes. Se fosse essa a sua única
estadia, Campos certamente o diria.. Vivendo no Ribatejo, terá,
por força, ido a Santarém. À véspera da
morte – na verdade alguns meses antes –, retornou definitivamente
à Lisboa em que nascera. E aí, depois de haver escrito
a maior parte dos seus poemas, finalmente veio a morrer. (Pessoa,
1976b. p. 97) É esse o mundo de que temos notícia em
que se moveu. “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode
ver no Universo...” (p. 208) O que se pode ver ou o que se quer
ver, que na maioria das vezes é a mesma coisa. E, do mundo,
parece que Caeiro sempre quis pouco. Navio que partes para longe, Ou seja, para ele, só existe do mundo aquela parte que seus sentidos (particularmente a visão) podem abarcar. O que o poeta não vê deixa de existir. O mundo é o que os sentidos captam do mundo. Daí, a desnecessidade de ver e saber o que o horizonte esconde. O poeta posta-se à margem e sente o espetáculo do mundo: Olá, guardador de rebanhos, À beira-estrada, à beira-rio, à beira-vida(NOTA
6) , o Mestre frui(NOTA 7) o mundo que passa e não pensa nem
sente em relação a isso; apenas frui de longe a existência
das coisas cuja essência está nelas mesmas e em serem
elas mesmas: De longe vejo passar no rio um navio... Diferentemente de Reis que vive a vida numa espécie de ataraxia fugitiva, como já dito, Caeiro busca o ideal da imobilidade, da não-mediação, que são, claro, inatingíveis, mas o poeta persegue-as com a persistência dos simples. O mundo não se fez para pensarmos nele Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.. O meu olhar azul como o céu Sou místico, mas só com o corpo. O meu misticismo é não querer saber. De Lisboa a Santarém, entre porto e porto moveu-se esse ser de curto viver, num deslocamento não buscado, em que a viagem estava não no movimento circunstancial, mas na inatingível meta da ataraxia que recusa o fluxo e a mediação. Viver à margem, fruir pelos olhos o espetáculo das coisas e comungar com a Natureza pela direta sensação, desprezando a Filosofia porque ela busca o inexistente. A viagem não é uma recusa, é uma impossibilidade. A profunda viagem Em algum lugar, atrás dos seres poéticos que o nome Fernando Pessoa contém por hiponímia, existe um Fernando Pessoa ele-mesmo, um cidadão, pagador de impostos, que vaga(va) pelos cafés lisboetas. Esse é um ser inacessível pela leitura da poética de Fernando Pessoa, ortônimo e heterônimos – todos sabemos disso. Aquele Fernando Pessoa mantém uma relação de eponímia com o ortônimo, isto é, dá-lhe nome. O último, por sua vez, está contido por hiponímia dentro de um Fernando Pessoa, hiperônimo que a todos contém. Não se fala aqui daquele ser insondável(NOTA 9) , o Fernando Pessoa cidadão. A vida e as viagens desse ser pouco explicariam das viagens deste de quem aqui se fala. O Fernando Pessoa de que falamos é aquele, discípulo de Caeiro. Talvez o alvo do ferino comentário de Ricardo Reis sobre ser um “novelo embrulhado para o lado de dentro(NOTA 10) .” Poeta de muitas vozes e de muito dizer: Leva-me longe, meu suspiro fundo, O poeta clama por uma viagem que o leve para “muito longe”; e a quem pede ele isso? Ao “meu suspiro”, isto é, a si mesmo. Porque esse “muito longe” a que aspira está de fato, dentro de si. Ele quer viajar para longe do mundo exterior, escapando completamente para dentro de si. Isso é impossível, claro. E o poeta o sabe e dirá: Aí...mas de que serve imaginar Nesse soneto a viagem é uma fuga abortada para dentro de si. A impossibilidade da fuga e a malograda tentativa de adentrar-se retornam em diversos outros poemas, às vezes com alguma variação, mas constituindo uma espécie de recorrência. Outro exemplo: Qualquer caminho leva a toda parte, Onde acabou. “Qualquer caminho leva a toda parte,” começa otimista
e rico em possibilidades: todos os caminhos estão livres e
acessíveis, todas as viagens são possíveis. O
mundo está ao total alcance do poeta. No terceiro verso crescem
mais ainda as possibilidades. No quinto e sexto versos já não
há possibilidades, a estrada acaba. Na última sextilha,
a recorrência: os caminhos estão todos no poeta que tudo
contém em si, inclusive o mundo exterior. É ele a impossibilidade. Tem só uma demora de passagem Nesses versos o poeta diz que a vida é uma viagem, simplesmente.
Metaforizar seria chamá-la outra coisa. Porque a viagem, essa
que se empreende de corpo e mala, arrastando a alma junto com os desconfortos
a que o viajante é submetido em gares, comboios e diligências,
para essa só há a recusa como alternativa ao desespero:
O mais é sonho, que é condição insuperável
do ser poético. Sonho absorvente e pensamento(NOTA 11) que
nunca abarca a vida, que nunca a pode dirigir. O sonho é sempre
maior e a vida e o pensamento a ele submissos: Sempre serás o sonho de ti mesmo. Não. Não há possível partida. Não há viagem. De que gare ou de que cais podem partir o comboio ou o navio capaz de levar para fora este ser cujo destino parece ser sempre o dentro do que está dentro de dentro? Talvez o cais de que fala Álvaro de Campos: Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, Aparentemente num ato falho, Campos se confessa pelo quarteto. A
viagem que o poeta quer empreender seria aquela que partiria dum Porto
Ideal, situado nalgum intangível continente das Idéias,
perdido num tempo imponderável, absolutamente falso em sua
idealidade. Falso porque o Cais Absoluto que serve de modelo para
aqueles que “Nós os homens construímos / Os nossos
cais de pedra atual, sobre água verdadeira.”, é
falso. A água, diz ele, é verdadeira. Tudo o mais é
falso, porque um modelo falso só pode ser matriz de construtos
também falsos. Talvez seja essa a viagem pessoana: a impossível
viagem da falsa idealidade enredada apenas pelo intelecto e sem amarras
na vida real(NOTA 12) . Talvez. Passa no sopro da aragem Não quero ir onde não há luz, Não quero ir onde não há luz, Para que vim a esta clara vida? Esse ser “longe do mundo e da vida” (Pessoa, 1976. p. 518) quer a vida, portanto, mesmo angustiante, mesmo cheia de dor e de dúvidas, a vida parece ser para o poeta uma aventura que vale a pena ser provada, mesmo que prová-la, para ele, signifique a permanente recusa à maioria das suas possibilidades. A viagem simbólica A viagem, como tropos, ou como símbolo, tem amplo trânsito na cultura ocidental. Pode representar a vida ou a morte; ou mais precisamente, vida e morte, que são indissociáveis. Diz Ricardo Reis: “E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio(NOTA 16) (p. 257). Esse sentido da viagem é encontrado em muitos outros momentos na poesia dos hipônimos (os três heterônimos mais o ortônimo), como está nesse mesmo Reis: Sereno aguarda o fim que pouco tarda, Também a viagem simbolizando o curso da vida encontra-se em
vários dos poemas citados aqui, por exemplo em Sá-Carneiro,
ou no estranhamente simbólico O Contra-Símbolo, integralmente
reproduzido mais à frente, ambos de lavra do ortônimo. É em nós que há os lagos todos e as florestas. Estou exilado aqui e morto vivo. Vou em mim como entre bosques. Quê! Esta alma que sonha Nada. Passaram nuvens e eu fiquei... Sou um navio que chegou a um porto Ao mergulho, a alma compreende e aceita ou recusa de diferentes maneiras
em diferentes momentos da vida. Resultará em exílio,
perda, ansiedade,ou pura aceitação. O ser que empreende
o mergulho será um novo ser, prenhe do fracasso da sua busca,
pois é esse fracasso que o faz poeta. A viagem inconclusa Uma só luz sombreia o cais E o cheiro prateado a mar morto Um apeadeiro universal E no desdobre da memória Datado de 1926 e atribuído ao ortônimo esse poema, na
sua estranheza, com aparência de ter nascido no século
errado, com uma carga simbólica aparentemente mais adequada
ao século 19 que ao pós-futurismo do Pessoa dos anos
20, vai aqui como representativo das sensações provocadas
pela leitura da obra do poeta em busca do tema da viagem. Foi uma
estranha viagem de grandes descobertas e de absorção
de uma poética da recusa e do adiamento. Triste de quem vive em casa, contente com o seu lar, Esses versos são do poema “Quinto Império”,
do livro Mensagem. Trata-se de um estranho e aparentemente ainda não
muito compreendido livro. Não por falta de leitura. Talvez
estejam nesse conjunto os mais lidos poemas de Pessoa. Estão
ali alguns dos seus mais felizes achados poéticos; versos de
rara beleza plástica ou portadores de estranha carga simbólica.
As viagens desse estranho livro pedem um roteiro exclusivo, um percurso
calmo e reflexivo que, talvez, permita compreender ao menos em parte
seu incomum olhar sobre a história e sobre os mitos. Afinal,
é da natureza das viagens que se recolha menos que o encontrado
e que ao final delas, menos ainda seja o que delas se guardou. Bem, hoje que estou só e posso ver Hoje, vou confessar, quero sentir-me Falhei a tudo, mas sem galhardias, Mas fica sempre, porque o pobre é rico Esse estranho e fugitivo ser que nada foi por nada querer ser e que escrevia para lembrar; de fuga em fuga, de recusa em recusa, de si mesmo demitindo-se; foi entre não e não, um dos maiores(NOTA 19) entre aqueles que, servindo-se da língua de Camões, tangeram a lira que faz com que seres tão pequenos como os humanos, superando sua condição animal, aspirem a ombrear os deuses – a Poesia.
The poetic beings who are contained by the name Fernando Pessoa are approached and moved away between them, trying to understand how the trip, like a lyric motive, is confronted by Pessoa’s poetic enterprise.
Referências bibliográficas ANDRADE, Sônia Maria Viegas. A experiência do absoluto em Fernando Pessoa. In: Boletim do Centro de Estudos Portugueses. Belo Horizonte, n.1. p. 21-47, junho, 1979 CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1991 CURTIUS, Ernest Robert. Literatura européia e idade média latina. 2. ed. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1979 GULLAR, Ferreira. A razão poética. Folha de São Paulo, São Paulo. p. 5.6-5.8 domingo, 10 de novembro de 1996 (Caderno Mais!) JAKOBSON, Roman. Os oxímoros dialéticos de Fernando Pessoa. In: Os Pensadores: vol. XLXIX. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p.125-145 PAZ, Octávio. O desconhecido de si mesmo: Fernando Pessoa. In: ______, Signos em rotação. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 201-220 PESSOA, Fernando. Obra poética. 6. ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1976a PESSOA, Fernando. Obra em prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1976b PINTO, Madalena Vaz. A festa da fragmentação. Cult: Revista brasileira de literatura, São Paulo, Ano II, n. 18, p. 48-49, janeiro/1999 SARAIVA, Antônio José e LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. 7. ed. Santos: Martins Fontes, s.d.
NOTAS 2- Segundo Sônia Viegas, Ricardo Reis “encara o expatriamento – tão doloroso em Álvaro de Campos –, não como uma condenação, mas como um ato voluntário, o único, talvez, permitido à consciência humana. (Andrade, 1973. p. 41) 3- Diz ainda Sônia Viegas de Álvaro de Campos: “A sensação e desterro transporta-se, dos lugares e dos acontecimentos, para a própria realidade do sujeito. A base do estranhamento do mundo é, pois, o estranhamento de si” (Amdrade. 1971. p. 23) 4- Segundo Saraiva, Álvaro de Campos é , também, o poeta “dos estados evanescentes de sonolência, cansaço, atenção marginal, desagregação subjetiva, inapetência, apreendidos no entanto com uma tal concentração e apetência de lucidez, que problematiza e dinamiza a unidade do eu, arreda a cômoda metafísica da substancialidade psicológica e leva-nos ao limiar do conceito moderno do eu como projeto de vida a refazer-se e nó de sociabilidade.” (Saraiva e Lopes, s.d. p. 1085) 5-O mestre Caeiro veria aqui, com razão, uma manifestação de idealismo filosófico. Diz ele, irônico: O que quero é um sol mais sol 6- Nos versos de Caeiro, a vida sempre flui contemplada pelo poeta distante, à margem, à janela, como nos versos que seguem e em outros citados neste trabalho, por exemplo, Pessoa, 1976. p. 239, p. 243 etc. Saúdo todos que me lerem, Ao entardecer debruçado pela janela 7- Há aqui uma vacilação quanto ao uso desse verbo. Segundo o dicionário, fruir significa também ‘ter posse de’ e, certamente, Caeiro nunca almejou ter posse da Natureza. Queria apenas contemplá-la. 8- Pessoa, 1976. p. 213. 9- Disse outro poeta, falando desse mesmo Pessoa: “Os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia...” Paz, 1996. p.201. 10- Diz desse , Álvaro de Campos: “O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro” (Pessoa, 1976. p. 249) 11-“...tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então seu oposto, um medo.” Calvino, 1991. p. 44. 12- “E só em sonho vou seguindo”, confirma o poeta. (Pessoa, 1976. p. 551) 13- “Não sei o que me falta.../ Não sei o que quero, / Nem posso sonhá-lo...” diz o poeta. (Pessoa, 1976, p. 120) 14- Caeiro também não parece atraído por essa viagem: Creio que irei morrer. 15- O primeiro desses dois poemas, um sexteto, datado de 1924, intitulado Ligeia; o segundo, datado de 1932 e sem título, é um fragmento de 27 versos, do qual se reproduz os versos iniciais e os últimos. Iniciam-se ambos pelo mesmo verso – “Não quero ir onde não há luz” –, o que lembra quanto esse era um tema afim ao poeta, uma preocupação. O sinal [?] indica a existência de palavra ilegível no original. 16-Ou, “O óbolo a Caronte grato”, do mesmo Ricardo Reis. (Pessoa, 1976. p.271) 17- Diz Madalena Vaz Pinto: “Ao perder sua relevância, a heteronímia deixa vir à tona o que é de fato significativo: que, ao multiplicar a simbologia do seu nome, Fernando Pessoa diz-nos, através da aparente festa da fragmentação, da impossibilidade de ser uno.” (Pinto, 1999. p. 49) 18- A poética de Caeiro é “...a opção pelo não-pensamento,” – diz a mesma Madalena Vaz Pinto, “oposta à defendida por Reis como expectador da existência; à de Campos, como encenação no mergulho das sensações, à de Pessoa, paralisado pela memória do que nunca existiu” (Pinto, 1999. p. 49) 19- Jakobson inclui Pessoa no panteão dos artistas mundiais nascidos nos anos de 1880, ao lado de Picasso, Braque, Joyce, Stravinsky, Khliébnikov e Le Corbusier, dizendo deles: “A extraordinária capacidade desses descobridores em sempre e sempre superarem os hábitos já envelhecidos da véspera, juntamente com um dom sem precedente de aprenderem e remodelarem cada tradição anterior e cada modelo estrangeiro...” (Jakobson, 1975. p.127) |