REVISTA CRIAÇÃO

OS EUS VIAJANTES:
O TEMA DA VIAGEM EM FERNANDO PESSOA
AUTOR: JOSÉ QUINTÃO DE OLIVEIRA,
Professor de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras
da Universidade Federal de Minas Gerais

Introdução

A viagem sempre foi tema afim ao imaginário europeu e, conseqüentemente ao imaginário ocidental. Narra uma infindável viagem uma das mais caras matrizes literárias e culturais dos europeus – a Odisséia. Permeiam o Antigo Testamento histórias de viagens, como aquela que fez o povo hebreu pelo deserto durante quarenta anos, guiado por Moisés, diretamente orientado por Deus. Viajou Jonas na barriga de uma baleia; viajou José, filho de Jacó, ao Egito. O mesmo Egito recebeu José, o carpinteiro, e Maria com seu filho, em fuga das tropas de Herodes.
A Idade Média européia (e depois a Renascença) é prenhe de narrações de gestas de heróis que vagam pelo mundo; e de terras míticas, como a Terra de Cocanha, o reino do Preste João, Hi Brazil, e muitas outras, só acessíveis em míticas viagens sonhadas. Marco Polo, a Utopia de Thomas More, as viagens de Gulliver filiam-se a essa vertente viageira do imaginário europeu, cujos heróis quase sempre estão condenados a vagar por estranhas terras, – mesmo que só imaginadas – como também, de certa forma, o fez Dom Quixote.
Portugal, espremido ao norte pelo complexo montanhoso galaico-português e empurrado para o mar pela Espanha, sempre fonte de ameaça – primeiro, terra dos mouros infiéis, depois reino rival sempre mais poderoso e agigantado face ao minúsculo Portugal – aos portugueses só deixou, sempre, a saída pelo mar. E ao mar eles se lançaram. Primeiro nas inglórias cruzadas dos “falsos romeiros à Terra Santa” que, como rememora Saraiva (Saraiva; Lopes, s.d. p. 67), foram alvos da sátira jogralesca; depois, navegantes audazes que queriam engolir o mundo em nome de Cristo e pela força da espada e dos canhões.
A viagem seria sempre um fado incontornável para um povo cuja principal cidade foi miticamente fundada por Ulisses, que a nomeou. Vasco da Gama, Fernão de Magalhães, Cabral fizeram-se ao mar. Luís de Camões, outro viajante impenitente, cantou-os na maior epopéia que o Renascimento legou à nossa cultura. Fernão Mendes Pinto vagou pelos novos mundos e deu à literatura a sua Peregrinação.
Dos cantores medievais que vagavam de aldeia em aldeia, passando por Dom Sebastião e sua inglória viagem ao norte africano até os angustiados seres de Lobo Antunes, vagantes entre uma África perdida (talvez nunca conquistada) e uma Lisboa irrecuperável, a literatura portuguesa é uma literatura de viagens. Das viagens de um desses viajantes se falará nas linhas que se seguem.

A fuga imóvel

Há uma nostalgia, um sentimento de uma indefinível perda em poemas como Impressões do Crepúsculo, que fala do “longínquo dobre de Outros Sinos” (Pessoa, 1976. p. 108). Parece um sino situado em um outro mundo, fora do tempo, e por isso, inalcançável em uma comum viagem. Talvez o seja apenas pela viagem de que fala Ricardo Reis:

Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia
(p.278)*

Essa viagem, o único definitivo na vida, em que tudo é transitório, precário, apenas um fugaz minuto roubado à Eternidade que se conclui quando “com mão mortal elevo à mortal boca / em frágil taça o passageiro vinho”, diz o poeta.
Descrevendo o pôr-do-sol, Ricardo Reis não fala de outra coisa. Retorna aqui o tema da viagem. Uma viagem metafórica, simbolizada na ausência do deus, de quem só sabemos pelo rastro que deixa no céu, isto é, “a poeira que levantara”, que baixará e do deus, como do dia, nada restará.

De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista. A poeira que levantara
Ficou enchendo de leve névoa
O horizonte
(p.255)


Tudo é transitório nessa viagem que empreendemos mais curta que um dia face à irrecorrível infinitude do tempo. E de nós, diferentemente do deus, nem a “leve névoa” restará. Lembra-se sempre o poeta de que nada podemos contra os Fados, que eles são maiores que os próprios deuses, cujas vontades submetem. Esse é o território pelo qual Reis empreende sua viagem:

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
(p. 269)

Essa ataraxia fugitiva (NOTA 1) é a resposta que o poeta Reis oferece à vida que, para ele, só metaforicamente pode ser uma viagem. Pois deslocar-se seria ver o mundo e nele arriscar-se a envolver. Viajar implicaria em expor-se a encontrar uma Lídia com quem enlaçar as mãos perigando não mais desenlaçá-las. E isso não pode tolerar quem só pelo intelecto quer comprometer-se com a vida. “Nada se sabe, tudo se imagina” (p. 277), diz o poeta, o que pode ser traduzido por “Nada se vive, tudo se imagina”. Parece ser esse o mote desse poeta da recusa à vida que escreve odes ao mínimo viver, nos quais nada é vida verdadeira, apenas manifestação de fastio intelectual.
Ricardo Reis é aquele, que por ser monarquista, abandona a Pátria e migra para o Brasil. Estranha viagem essa que empreende esse fugitivo da República que repugna-o ao ponto de fugir para ... outra república. Foge, ao que parece, mais da quebra da rotina que da prática política que desagrada ao aristocrata que despreza o povo. Ora, ficar chamaria à ação, e ao poeta Reis desagrada mais a ação que a República, Daí, essa viagem que é, na verdade, uma não-viagem, é um mover-se para não se mover. O poeta atravessa um oceano para continuar imóvel. Esse estranho ser que vagou pela Grécia e por Tróia, que fala das portas do inferno às margens do Averno sem sair de Lisboa, abandona-a (definitivamente, ao que parece) sem se mover de si ou a si.
Diz a tradição que Ovídio, exilado por Augusto, vai viver às margens do Mar Negro, onde ganha estátua em praça pública como grande poeta que fala da nova pátria na língua da nova pátria. Mesmo saudoso de Roma, para onde anseia voltar; mesmo penando cada dia distante da urbe grandiosa que para ele era o mundo, o poeta vive numa nova terra e essa vive em seus versos. Ricardo Reis não fala da nova pátria – mesmo contando com o conforto de não necessitar transpor-se a uma língua estranha – porque para ela nunca se deslocou. Continuou a viver onde sempre vivera: em si mesmo, desconectado do mundo, fingindo um paganismo que nunca professara de fato. Ele confessa:

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito
(p. 290)

Datado de 1933, esse é portanto um poema “brasileiro”, mas o desterro de que fala é outro; é o desterro de um poeta, como disse Álvaro de Campos (NOTA 2) , cuja emoção é “demasiadamente voltada para o ponto cardeal chamado Ricardo Reis.” (p. 251) Um poeta que recusa o mundo, não tem para onde viajar, nem mesmo quando fugitivo.

A margem que não há

O primeiro poema atribuído a Álvaro de Campos, “Opiário, datado de 1913, fala de uma viagem. Trata-se de um regresso, após ter estado no Oriente – “Não chegues a Port Said, navio de ferro!”. (p. 302) Na saída para o Mediterrâneo, Port Said é destino de quem, navegando pelo Suez, busca o Ocidente.”Volto à Europa descontente” (p. 303), “Esta vida de bordo há de matar-me” (p. 303), desatina-se o poeta. A viagem ao Oriente não foi o suficiente para satisfazer a ânsia do cosmopolita poeta decadentista nascido em Tavira, terra de Algarves, onde teria existido a Escola de Sagres de que falam os mitos e de onde partiram caravelas que sondaram o mundo e ampliaram suas fronteiras. Viveu na Escócia, visitou a Irlanda. Por isso, a escolha:

E eu vou buscar no ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente
(p.301)

Para o cerebral Álvaro de Campos em sua fase decadentista parecem poucas as sensações provocadas pela viagem. Tomado pelo tédio busca no ópio geografias que o navio não pode alcançar.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou.
(p. 303)

Viagens diferentes empreenderá posteriormente esse Álvaro de Campos (NOTA 3) . Na Ode Marítima, solitário entre a multidão da grande cidade, o poeta chega ao cais e vê “pequeno, negro e claro, um paquete vem entrando” (p. 315). A partir dessa visão, o poeta viaja no tempo e no espaço, recupera fugazmente a própria infância.
É poeta de muitas viagens o Álvaro de Campos. De Lisboa à Grã-Bretanha, onde (finge que) estuda – “eu fingi que estudei engenharia, / Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.” (p. 303) – e passeia. Ainda estudante empreende a viagem ao Oriente descrita no poema Opiário, retornando a Lisboa pela França (visita Paris) e Espanha. Empreende ainda viagens através do tempo – a recuperação da infância na Ode Marítima, por exemplo – ou do espaço-tempo, como na ode Passagem das Horas que lhe permite visitar “todas as cidades acessíveis à imaginação” (p. 349).
Mas a grande viagem de Álvaro de Campos, sua grande travessia é, talvez, aquela empreendida pela sua poesia que, nascida decadentista, experimenta uma fase whitmaniana de comunhão com a humanidade e exaltação da vida e do progresso para depois mergulhar numa fase niilista muito próxima à experiência poética de Fernando Pessoa (NOTA 4) , o ortônimo. Essa é uma trajetória que suscita perguntas múltiplas. Por que terá ocorrido? Precisaria Fernando Pessoa de duas vozes para o mesmo discurso poético? Teria ele tanto a dizer na mesma clave do ortônimo ao ponto de uma só voz ser-lhe insuficiente? Ou, simplesmente, por que, encerrado o discurso withmaniano e não lhe restando mais nada a dizer com voz autônoma não morreu Campos como aconteceu a Caeiro?
Diz Fernando Pessoa que Álvaro de Campos é “tipo vagamente de judeu português” (Pessoa, 1976b. p. 97). Esse Campos a quem Almada Negreiros retrata como um dandy, eternamente de mala na mão. Talvez venha daí sua sina de viajante, sempre em véspera de coisa nenhuma. Pois a viagem, para ele, mais que novos mundos – porque “a terra é semelhante e pequenina.” –, é a monótona repetição do já visto. Citando completa o quarteto:

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.
(p.303)

Não vale a pena viajar, pois nada há para ser visto. A alma entediada e contraditória desse judeu errante quer vagar, mas corpo preguiçoso quer ficar. Viaja então pelo pensamento mais que pelos comboios e navios. Só há um modo de viver e tudo é igual. Diante dessa constatação esfacela-se o instinto desse viajante que parece só querer mesmo, em todas as viagens, a sua infância de volta. É a entediante recusa à partida, mesmo quando ela ocorre:

Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão
[de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico .. Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...
(p.343)

Mesmo quando do outro lado da viagem há alguém por cuja presença o poeta parece ansiar, a decisão da viagem é adiada. Indefinidamente adiada, pois mesmo partindo, ele continuará adiando. Viver, para Álvaro de Campos, é adiar. Imagina esse estranho poeta sensacionista de tão poucas sensações que “...há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.” (p. 349) Por que não emigra então? Por que vivendo em Glasgow volta a Lisboa? Talvez porque como diz ele:

fui educado pela Imaginação,
viajei pela mão dela sempre
(p. 343)

Pode estar aí a última e definitiva explicação. Educado pela imaginação e pela mão dela viajando, os lugares em que ele se encontra nunca são os lugares imaginados. Sempre que alcançados, deixam de ser imaginação e, para esse poeta do pensamento a realidade só pode ser mesmo o tédio. Daí o constante apelo à constante partida, muitas vezes, gerador da estranheza provocada pela poética desse ser que, viajante, permanece imóvel e, imóvel, torna viagem o estático:

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela nos meus nervos e um ranger de ossos da ida.
(p. 363)

Sobre o conflito que o poeta estabelece entre Realidade e Imaginação talvez seja interessante uma aproximação entre os poemas Opiário e Ode Marítima. No primeiro, o poeta entedia-se com o pouco que lhe oferece a viagem que faz ao Oriente e por isso busca um “Oriente ao oriente do Oriente (NOTA 5) ” ao qual até mesmo a imaginação solitariamente não parece capaz de conduzi-lo. Por isso, o recurso ao atalho oferecido pelo ópio que, porém, não lhe abre novas portas: oferece-lhe apenas o tédio, já velho companheiro. No segundo, o poeta empreende uma exaltada viagem imaginária que supera tempo e espaço e o transpõe a um mundo, onde os limites parecem ser a piedade por aqueles a quem o poeta sonha causar dor, a infância perdida que invade o poema reclamando seu latifúndio de fantasia e o tédio, esse eterno companheiro de quem substitui a vida pelo pensamento sobre a vida. “Todo esse tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo” (p. 330), confessa ele. “Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio” (p. 336), declara; “E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia” (p. 359), conclui o poeta para quem a vida é uma margem inalcançável, quiçá inexistente.

Por onde viaja o Mestre?

“Vou onde o vento me leva” (p.2452), diz Caeiro, mas o vento não o leva muito longe. Não pode o vento levar ao mundo quem não o quer. Há poucos registros de movimentos de Alberto Caeiro. Álvaro de Campos relata que o encontrou pela primeira vez na casa de um primo (de Caeiro); relata também uma conversa que tiveram certa vez em Lisboa, o que faz supor que o Mestre lá esteve outras vezes. Se fosse essa a sua única estadia, Campos certamente o diria.. Vivendo no Ribatejo, terá, por força, ido a Santarém. À véspera da morte – na verdade alguns meses antes –, retornou definitivamente à Lisboa em que nascera. E aí, depois de haver escrito a maior parte dos seus poemas, finalmente veio a morrer. (Pessoa, 1976b. p. 97) É esse o mundo de que temos notícia em que se moveu. “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...” (p. 208) O que se pode ver ou o que se quer ver, que na maioria das vezes é a mesma coisa. E, do mundo, parece que Caeiro sempre quis pouco.
Sensacionista por princípio, mais que por ser poeta, não precisava ver outras terras além daquela em que a necessidade o fez mover-se. Vendo um navio que parte – não sabemos de que porto –, diz ele:

Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois que desapareces, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir,
E se se tem saudade do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.
(p. 243)

Ou seja, para ele, só existe do mundo aquela parte que seus sentidos (particularmente a visão) podem abarcar. O que o poeta não vê deixa de existir. O mundo é o que os sentidos captam do mundo. Daí, a desnecessidade de ver e saber o que o horizonte esconde. O poeta posta-se à margem e sente o espetáculo do mundo:

Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?
(p. 213)

À beira-estrada, à beira-rio, à beira-vida(NOTA 6) , o Mestre frui(NOTA 7) o mundo que passa e não pensa nem sente em relação a isso; apenas frui de longe a existência das coisas cuja essência está nelas mesmas e em serem elas mesmas:
É pouco provável que, considerando a totalidade da obra pessoana, o motivo da viagem constitua nela um topos, no sentido com que usa Curtius (1979. p. 72, 85 e seg.) esse termo. Na obra de Caeiro, pode-se dizer que a viagem é muito menos – é uma desnecessidade. Para que ir contemplar flores e prados de distantes terras quando há ao redor tantas flores e tantos prados ainda não contemplados?

De longe vejo passar no rio um navio...
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimo desolação com isto(NOTA 8 ) .
(Pessoa, 1976. p.239)

Diferentemente de Reis que vive a vida numa espécie de ataraxia fugitiva, como já dito, Caeiro busca o ideal da imobilidade, da não-mediação, que são, claro, inatingíveis, mas o poeta persegue-as com a persistência dos simples.

O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..
(p. 205).

O meu olhar azul como o céu
E calmo como a água ao sol.
E assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...
(p. 217)

Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.
(p. 244)

De Lisboa a Santarém, entre porto e porto moveu-se esse ser de curto viver, num deslocamento não buscado, em que a viagem estava não no movimento circunstancial, mas na inatingível meta da ataraxia que recusa o fluxo e a mediação. Viver à margem, fruir pelos olhos o espetáculo das coisas e comungar com a Natureza pela direta sensação, desprezando a Filosofia porque ela busca o inexistente. A viagem não é uma recusa, é uma impossibilidade.

A profunda viagem

Em algum lugar, atrás dos seres poéticos que o nome Fernando Pessoa contém por hiponímia, existe um Fernando Pessoa ele-mesmo, um cidadão, pagador de impostos, que vaga(va) pelos cafés lisboetas. Esse é um ser inacessível pela leitura da poética de Fernando Pessoa, ortônimo e heterônimos – todos sabemos disso. Aquele Fernando Pessoa mantém uma relação de eponímia com o ortônimo, isto é, dá-lhe nome. O último, por sua vez, está contido por hiponímia dentro de um Fernando Pessoa, hiperônimo que a todos contém. Não se fala aqui daquele ser insondável(NOTA 9) , o Fernando Pessoa cidadão. A vida e as viagens desse ser pouco explicariam das viagens deste de quem aqui se fala. O Fernando Pessoa de que falamos é aquele, discípulo de Caeiro. Talvez o alvo do ferino comentário de Ricardo Reis sobre ser um “novelo embrulhado para o lado de dentro(NOTA 10) .” Poeta de muitas vozes e de muito dizer:

Leva-me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
(p. 104)

O poeta clama por uma viagem que o leve para “muito longe”; e a quem pede ele isso? Ao “meu suspiro”, isto é, a si mesmo. Porque esse “muito longe” a que aspira está de fato, dentro de si. Ele quer viajar para longe do mundo exterior, escapando completamente para dentro de si. Isso é impossível, claro. E o poeta o sabe e dirá:

Aí...mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
(p. 104)

Nesse soneto a viagem é uma fuga abortada para dentro de si. A impossibilidade da fuga e a malograda tentativa de adentrar-se retornam em diversos outros poemas, às vezes com alguma variação, mas constituindo uma espécie de recorrência. Outro exemplo:

Qualquer caminho leva a toda parte,
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva onde indica a estrada
Outro é sozinho.
Um leva ao fim da mera ‘strada pára

Onde acabou.
Outro é abstrata margem
[...]
Ah! Os caminhos ‘stão todos em mim.
Qualquer distância ou direção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho deus eis se biparte
Em o que sou e o alheio a mim
(p.498)

“Qualquer caminho leva a toda parte,” começa otimista e rico em possibilidades: todos os caminhos estão livres e acessíveis, todas as viagens são possíveis. O mundo está ao total alcance do poeta. No terceiro verso crescem mais ainda as possibilidades. No quinto e sexto versos já não há possibilidades, a estrada acaba. Na última sextilha, a recorrência: os caminhos estão todos no poeta que tudo contém em si, inclusive o mundo exterior. É ele a impossibilidade.
Não se pode falar de uma absoluta recusa do poeta à viagem. O poeta se dispõe a empreendê-la, ao menos como tênue metáfora. Por exemplo, no poema Sá-Carneiro, a relação metafórica vida/viagem é direta. Pode-se dizer que é contraditoriamente uma ‘metáfora não metafórica’, pois o poeta parece dispensar qualquer forma de mediação ao fazer a aproximação:

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, o entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
(p. 583)

Nesses versos o poeta diz que a vida é uma viagem, simplesmente. Metaforizar seria chamá-la outra coisa. Porque a viagem, essa que se empreende de corpo e mala, arrastando a alma junto com os desconfortos a que o viajante é submetido em gares, comboios e diligências, para essa só há a recusa como alternativa ao desespero: O mais é sonho, que é condição insuperável do ser poético. Sonho absorvente e pensamento(NOTA 11) que nunca abarca a vida, que nunca a pode dirigir. O sonho é sempre maior e a vida e o pensamento a ele submissos:

Desfaze a mala feita para a partida!
Chegaste a ousar a mala?
Que importa? Desesperas ante a ida
Pois tudo a ti te iguala.

Sempre serás o sonho de ti mesmo.
Vives tentando ser.
Papel rasgado de um intento, a esmo
Atirado ao descer
(p. 547)

Não. Não há possível partida. Não há viagem. De que gare ou de que cais podem partir o comboio ou o navio capaz de levar para fora este ser cujo destino parece ser sempre o dentro do que está dentro de dentro? Talvez o cais de que fala Álvaro de Campos:

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,
Real, visível como cais, cais realmente,
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado,
Insensivelmente evocado,
Nós os homens construímos
Os nossos cais de pedra atual, sobre água verdadeira
(p. 316)

Aparentemente num ato falho, Campos se confessa pelo quarteto. A viagem que o poeta quer empreender seria aquela que partiria dum Porto Ideal, situado nalgum intangível continente das Idéias, perdido num tempo imponderável, absolutamente falso em sua idealidade. Falso porque o Cais Absoluto que serve de modelo para aqueles que “Nós os homens construímos / Os nossos cais de pedra atual, sobre água verdadeira.”, é falso. A água, diz ele, é verdadeira. Tudo o mais é falso, porque um modelo falso só pode ser matriz de construtos também falsos. Talvez seja essa a viagem pessoana: a impossível viagem da falsa idealidade enredada apenas pelo intelecto e sem amarras na vida real(NOTA 12) . Talvez.
Pode-se perguntar o que tal ser quer da vida. Um ser a quem o simples anseio de uma viagem é capaz de fazer toldar o coração; que nada decide(NOTA 13) , que pára ante as portas que lhe exigem decisão:

Passa no sopro da aragem
Que um momento o levantou
Um vago anseio de viagem
Que o coração me toldou.

[...]

O tédio das horas incertas
Pesa no meu coração,
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.
(p. 554)

Que quer, então, o poeta? Sabe-se que não quer a morte. Esta é uma viagem à qual também ele se recusa(NOTA 14) :

Não quero ir onde não há luz,
De sob a inútil gleba não ver nunca
As flores, nem o curso ao sol dos rios,
Nem como as estações que se renovam
Reiteram a terra. Já me pesa
Nas pálpebras que tremem o oco medo
De nada ser, e nem ter vista ou gosto,
Calor, amor, o bem e o mal da vida
(p. 505)

Não quero ir onde não há luz,
Do outro lado abóboda do solo,
Ínfera imensa cripta, não mais ver
As flores, nem o curso ao sol de rios,
[...]

Para que vim a esta clara vida?
Para que vim, se um dia hei de cair
Da haste dela? Para que no solo
Se abre o poço da ida? Por que não
Será sem o fim(NOTA 15) [?...]
(p. 563)

Esse ser “longe do mundo e da vida” (Pessoa, 1976. p. 518) quer a vida, portanto, mesmo angustiante, mesmo cheia de dor e de dúvidas, a vida parece ser para o poeta uma aventura que vale a pena ser provada, mesmo que prová-la, para ele, signifique a permanente recusa à maioria das suas possibilidades.

A viagem simbólica

A viagem, como tropos, ou como símbolo, tem amplo trânsito na cultura ocidental. Pode representar a vida ou a morte; ou mais precisamente, vida e morte, que são indissociáveis. Diz Ricardo Reis: “E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio(NOTA 16) (p. 257). Esse sentido da viagem é encontrado em muitos outros momentos na poesia dos hipônimos (os três heterônimos mais o ortônimo), como está nesse mesmo Reis:

Sereno aguarda o fim que pouco tarda,
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
[...]
ao nauta o mar obscuro é a rota clara
(p.288)

Também a viagem simbolizando o curso da vida encontra-se em vários dos poemas citados aqui, por exemplo em Sá-Carneiro, ou no estranhamente simbólico O Contra-Símbolo, integralmente reproduzido mais à frente, ambos de lavra do ortônimo.
A viagem pode quase sempre ser associada a um mergulho do ser em si mesmo. É o caso, por exemplo do poema “Eros e Psique” (Pessoa, 1976. p. 181), em que o Infante empreende sua longa viagem para descobrir-se no ser que buscava sem saber o ser e a si mesmo. Um mergulho de auto-descoberta.
Cara aos místicos, a lembrança da viagem como ciclo de formação e busca da iluminação, paira sobre mais de um poema, especialmente aquele No túmulo de Christian Rosencreutz (1976. p. 190-191), em que o poeta homenageia o mítico fundador da ordem Rosacruz, que vagou pelo mundo, unindo Oriente e Ocidente em seu percurso místico.
O sentido simbólico mais legítimo da viagem é, talvez, o mergulho em si mesmo, a busca baldada de uma essência humana que repousa no mais profundo dos seres. A angústia dessa busca expressa-se no fracasso de um empreendimento cuja razão de ser está em seu fracasso. Ao mergulhar, o ser poético falha na busca da essência que não há, mas encontra em si uma humanidade que se interroga e interroga ao mundo e que é às vezes recusa e às vezes aceitação:

É em nós que há os lagos todos e as florestas.
(p.553)

Estou exilado aqui e morto vivo.
(p.555)

Vou em mim como entre bosques.
(p.526)

Quê! Esta alma que sonha
O âmbito todo do mundo.
(p. 549)

Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...
(p. 181)

Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
(p.718)

Ao mergulho, a alma compreende e aceita ou recusa de diferentes maneiras em diferentes momentos da vida. Resultará em exílio, perda, ansiedade,ou pura aceitação. O ser que empreende o mergulho será um novo ser, prenhe do fracasso da sua busca, pois é esse fracasso que o faz poeta.
Há viajantes que alcançaram o Inferno, como Orfeu e Enéas. Há viajantes que conquistaram novos mundos, novas geografias. A todos o poeta cantou. Há viagens que mudaram o mundo, também dessas falou o poeta. E há, finalmente, as viagens que fracassaram porque a razão de que sejam viagens radica no seu fracasso. Só são viagens porque são falhadas. A essas viagens o poeta empreendeu.

A viagem inconclusa

Ferreira Gullar (1996) não resistiu ao trocadilho e chamou ao poeta Fernando Pessoas. Talvez haja nisso algum acerto. O certo é que, uno feito de múltiplos(NOTA 17) , ou múltiplos que são um só, os hipônimos, na obra pessoana, trazem em comum a complexa relação com o motivo viageiro(NOTA 18) . A viagem é um tema quase sempre tratado de forma ambígua, insatisfatória, opaca, como nesse poema, “O Contra-Símbolo”, que começa por um belo e estranho oxímoro:

Uma só luz sombreia o cais
Há um som de barco que vai indo
Horror! Não nos vemos mais!
A maresia vem subindo.

E o cheiro prateado a mar morto
Cerra a atmosfera de pensa
Até tomar-se este como porto
E este cais a bruxulear

Um apeadeiro universal
Onde cada um ‘spera isolado
Ao ruído – mar ou pinheiral? –
O expresso inútil atrasado.

E no desdobre da memória
O viajante indefinido
Ouve contar só a história
Do cais morto do barco ido.
(p. 507)

Datado de 1926 e atribuído ao ortônimo esse poema, na sua estranheza, com aparência de ter nascido no século errado, com uma carga simbólica aparentemente mais adequada ao século 19 que ao pós-futurismo do Pessoa dos anos 20, vai aqui como representativo das sensações provocadas pela leitura da obra do poeta em busca do tema da viagem. Foi uma estranha viagem de grandes descobertas e de absorção de uma poética da recusa e do adiamento.
Esta foi uma viagem cujo percurso produziu seu mapa. Percorrer a obra pessoana é uma perda de si que parece dispensar roteiro. Assim, dotada de um objetivo, de um norte, diz-se, esta viagem deixou muitos caminhos sem percorrer. Muitas foram as recusas, tão grandes eram as possibilidades. Assim, entre muitos outros ficaram fora do itinerário os “Poemas Ingleses”, as traduções, as quadrinhas ao gosto popular. Fora também ficou o poema de que foram retirados os versos que seguem:

Triste de quem vive em casa, contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar.
(p. 84)

Esses versos são do poema “Quinto Império”, do livro Mensagem. Trata-se de um estranho e aparentemente ainda não muito compreendido livro. Não por falta de leitura. Talvez estejam nesse conjunto os mais lidos poemas de Pessoa. Estão ali alguns dos seus mais felizes achados poéticos; versos de rara beleza plástica ou portadores de estranha carga simbólica. As viagens desse estranho livro pedem um roteiro exclusivo, um percurso calmo e reflexivo que, talvez, permita compreender ao menos em parte seu incomum olhar sobre a história e sobre os mitos. Afinal, é da natureza das viagens que se recolha menos que o encontrado e que ao final delas, menos ainda seja o que delas se guardou.
É assim, inconclusivamente, que se interrompe este ensaio, como uma baldeação, numa gare ou num cais desta fascinante obra poética que convida para outras e ainda mais fascinantes expedições. Mais uma vez fala o poeta:

Bem, hoje que estou só e posso ver
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto, se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer coisa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para lembrar bem.
(Pessoa, 1976. p. 548)

Esse estranho e fugitivo ser que nada foi por nada querer ser e que escrevia para lembrar; de fuga em fuga, de recusa em recusa, de si mesmo demitindo-se; foi entre não e não, um dos maiores(NOTA 19) entre aqueles que, servindo-se da língua de Camões, tangeram a lira que faz com que seres tão pequenos como os humanos, superando sua condição animal, aspirem a ombrear os deuses – a Poesia.


Os seres poéticos que por hiponímia estão contidos no nome Fernando Pessoa são aproximados e afastados entre si, na tentativa de compreender como o empreendimento poético pessoano se confronta com o motivo da viagem.

The poetic beings who are contained by the name Fernando Pessoa are approached and moved away between them, trying to understand how the trip, like a lyric motive, is confronted by Pessoa’s poetic enterprise.


Referências bibliográficas

ANDRADE, Sônia Maria Viegas. A experiência do absoluto em Fernando Pessoa. In: Boletim do Centro de Estudos Portugueses. Belo Horizonte, n.1. p. 21-47, junho, 1979

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1991

CURTIUS, Ernest Robert. Literatura européia e idade média latina. 2. ed. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1979

GULLAR, Ferreira. A razão poética. Folha de São Paulo, São Paulo. p. 5.6-5.8 domingo, 10 de novembro de 1996 (Caderno Mais!)

JAKOBSON, Roman. Os oxímoros dialéticos de Fernando Pessoa. In: Os Pensadores: vol. XLXIX. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p.125-145

PAZ, Octávio. O desconhecido de si mesmo: Fernando Pessoa. In: ______, Signos em rotação. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 201-220

PESSOA, Fernando. Obra poética. 6. ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1976a

PESSOA, Fernando. Obra em prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1976b

PINTO, Madalena Vaz. A festa da fragmentação. Cult: Revista brasileira de literatura, São Paulo, Ano II, n. 18, p. 48-49, janeiro/1999

SARAIVA, Antônio José e LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. 7. ed. Santos: Martins Fontes, s.d.


* Todas as citações de PESSOA, Fernando. Obra poética. 6. ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1976a serão identificadas apenas pelo número da página.

NOTAS
1- Diz Otávio Paz: “O estoicismo de Reis é uma maneira de não estar no mundo – sem deixar de estar nele.” (Paz, 1996. p. 215)

2- Segundo Sônia Viegas, Ricardo Reis “encara o expatriamento – tão doloroso em Álvaro de Campos –, não como uma condenação, mas como um ato voluntário, o único, talvez, permitido à consciência humana. (Andrade, 1973. p. 41)

3- Diz ainda Sônia Viegas de Álvaro de Campos: “A sensação e desterro transporta-se, dos lugares e dos acontecimentos, para a própria realidade do sujeito. A base do estranhamento do mundo é, pois, o estranhamento de si” (Amdrade. 1971. p. 23)

4- Segundo Saraiva, Álvaro de Campos é , também, o poeta “dos estados evanescentes de sonolência, cansaço, atenção marginal, desagregação subjetiva, inapetência, apreendidos no entanto com uma tal concentração e apetência de lucidez, que problematiza e dinamiza a unidade do eu, arreda a cômoda metafísica da substancialidade psicológica e leva-nos ao limiar do conceito moderno do eu como projeto de vida a refazer-se e nó de sociabilidade.” (Saraiva e Lopes, s.d. p. 1085)

5-O mestre Caeiro veria aqui, com razão, uma manifestação de idealismo filosófico. Diz ele, irônico:

O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
(Pessoa, 1976. p.244)

6- Nos versos de Caeiro, a vida sempre flui contemplada pelo poeta distante, à margem, à janela, como nos versos que seguem e em outros citados neste trabalho, por exemplo, Pessoa, 1976. p. 239, p. 243 etc.

Saúdo todos que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
(Pessoa, 1976. p. 204)

Ao entardecer debruçado pela janela
(Pessoa, 1976. p. 205)

7- Há aqui uma vacilação quanto ao uso desse verbo. Segundo o dicionário, fruir significa também ‘ter posse de’ e, certamente, Caeiro nunca almejou ter posse da Natureza. Queria apenas contemplá-la.

8- Pessoa, 1976. p. 213.

9- Disse outro poeta, falando desse mesmo Pessoa: “Os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia...” Paz, 1996. p.201.

10- Diz desse , Álvaro de Campos: “O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro” (Pessoa, 1976. p. 249)

11-“...tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então seu oposto, um medo.” Calvino, 1991. p. 44.

12- “E só em sonho vou seguindo”, confirma o poeta. (Pessoa, 1976. p. 551)

13- “Não sei o que me falta.../ Não sei o que quero, / Nem posso sonhá-lo...” diz o poeta. (Pessoa, 1976, p. 120)

14- Caeiro também não parece atraído por essa viagem:

Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move,
Lembro de que morrer não deve ter sentido.
(Pessoa, 1976. p.239)

15- O primeiro desses dois poemas, um sexteto, datado de 1924, intitulado Ligeia; o segundo, datado de 1932 e sem título, é um fragmento de 27 versos, do qual se reproduz os versos iniciais e os últimos. Iniciam-se ambos pelo mesmo verso – “Não quero ir onde não há luz” –, o que lembra quanto esse era um tema afim ao poeta, uma preocupação. O sinal [?] indica a existência de palavra ilegível no original.

16-Ou, “O óbolo a Caronte grato”, do mesmo Ricardo Reis. (Pessoa, 1976. p.271)

17- Diz Madalena Vaz Pinto: “Ao perder sua relevância, a heteronímia deixa vir à tona o que é de fato significativo: que, ao multiplicar a simbologia do seu nome, Fernando Pessoa diz-nos, através da aparente festa da fragmentação, da impossibilidade de ser uno.” (Pinto, 1999. p. 49)

18- A poética de Caeiro é “...a opção pelo não-pensamento,” – diz a mesma Madalena Vaz Pinto, “oposta à defendida por Reis como expectador da existência; à de Campos, como encenação no mergulho das sensações, à de Pessoa, paralisado pela memória do que nunca existiu” (Pinto, 1999. p. 49)

19- Jakobson inclui Pessoa no panteão dos artistas mundiais nascidos nos anos de 1880, ao lado de Picasso, Braque, Joyce, Stravinsky, Khliébnikov e Le Corbusier, dizendo deles: “A extraordinária capacidade desses descobridores em sempre e sempre superarem os hábitos já envelhecidos da véspera, juntamente com um dom sem precedente de aprenderem e remodelarem cada tradição anterior e cada modelo estrangeiro...” (Jakobson, 1975. p.127)

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