REVISTA CRIAÇÃO

A PAIXÃO DE CRISTO


O filme de Mel Gibson é de longe a melhor versão histórica da vida de Yeshua ben Yosef. Usei o nome histórico de preferência a Jesus Cristo por dois motivos. Primeiro porque o homem que foi crucificado pouco tem a ver com o mito criado a partir de sua história. Segundo porque Jesus Cristo é um nome composto de origem grega (Jesus é a tradução grega de Yeshua; Kristo tradução grega da palavra sânscrita Krishna). Mas voltemos ao filme...

O Yeshua de Mel Gibson sangra, sofre e, por fim, agoniza e morre. Em nenhum momento o filme comete o equívoco de mostrá-lo sobre humano. Yeshua era um homem e morreu, portanto, como um homem.

Os romanos criados pelo Mad Max são cruéis, sanguinários e impiedosos. Portanto, em tudo semelhantes aos senhores do mundo antigo. Roma conquistou e preservou o domínio na Judéia a ferro e fogo. História é história e o cinema não deveria fazer concessões. Quando mutila os fatos a indústria cultural americana engana os cinéfilos em nome dos negócios.

A verossimilhança obrigou Gibson a retratar os judeus como pérfidos, egoístas e traidores. Nenhuma novidade. A maldade e a perfídia judaica são detalhadamente relatadas na Bíblia, que é o mais sanguinário de todos os livros segundo Noam Chomsky, proeminente intelectual americano de origem judaica.

A única critica que se pode fazer ao filme é sua devoção ao Novo Testamento. Mel Gibson filmou o que está escrito e pronto. Não se preocupou em fazer qualquer tipo de questionamento acerca do processo que levou à condenação de Yeshua.

Roma conquistou o mundo em razão de sua superioridade militar. Preservou o Império em virtude de respeitar a identidade cultural dos povos que submeteu. Desde que pagassem seus tributos, as províncias desfrutavam de uma certa autonomia e até podiam gozar alguns benefícios decorrentes da submissão (proteção contra inimigos, obras públicas, etc).

Os magistrados romanos só aplicavam o Direito Romano quando os interesses romanos ou de cidadãos de Roma estivessem em jogo. Quando o conflito não dizia respeito aos interesses do Império e de seus cidadãos Roma permitia aos povos que aplicassem suas próprias normas jurídicas (Ius Gentiun ou Direito das Gentes). Caso houvesse conflito entre o Direito das Gentes e o Direito Romano, prevalecia o último que era a expressão maior do poder romano.

Uma coisa sempre me intrigou na condenação de Yeshua ben Yosef. Tal como foi relatado no Novo Testamento, o processo apresenta anomalias incompatíveis com o Direito Romano.

Yeshua foi acusado e condenado por traição. Sua conduta não colocava em risco o Império, mas apenas a fé judaica. Portanto, ele não poderia ser considerado inimigo de Roma. Consciente disto Pilatos lavou as mãos e deixou o povo decidir o destino do acusado. A condenação ocorreu, portanto, com base no Ius Gentiun. Apesar disto, Yeshua foi crucificado pelos romanos. É neste ponto que o relato do processo apresenta uma discrepância em relação à história do Direito Romano.

Roma condenava à crucificação os traidores do Império. Executava-os sem piedade. Entretanto, as penas impostas aos indivíduos com base no Direito das Gentes pelo seu povo eram executadas pelas autoridades locais e não pelos romanos. A menos que seu poder fosse ameaçado, Roma jamais se intrometia nos problemas internos dos povos submetidos. Esta foi uma das razões pelas quais o Império cresceu e se manteve por mais de mil anos.

O intrigante desfecho do processo de Yeshua merecia alguma atenção nesta versão da Paixão de Cristo. Infelizmente isto não ocorreu. Tudo indica que a indústria cinematográfica ainda não está preparada para questionar mais profundamente o mito do crucificado.


Fábio de Oliveira Ribeiro

>>A CRIAÇÃO
 
>>Literatura
>>Textos Literários
>>Colaboradores
>>Mitologia
>>Cinema
>>Cibercultura
>>Humor
>>Outros Escritos
>>Fotos
>>Contato
>>Web Master
 
 
 
 
 
LITERATURA TEXTOS LITERARIOS MITOLOGIA CINEMA CIBERCULTURA OUTROS ESCRITOS