REVISTA CRIAÇÃO

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

A "Persistência da Memória" é meu quadro preferido de Salvador Dali. Foi ele que me ajudou a compreender como o Brasil trata a memória concreta e conceitualmente de maneira absolutamente distinta.


No plano conceitual o Brasil se preocupa com a preservação de sua cultura e história (é o que consta da CF/88). No concreto, entretanto, salvo raríssimas exceções, os museus e bibliotecas brasileiros ou estão caindo aos pedaços ou sendo aliviados de seu acervo pelas traças e punguistas.


A CF/88 prescreve que o Estado é laico, que há separação entre a esfera pública e as religiões. Entretanto, quando o ex-nazista que atualmente comanda o catolicismo mundial visitou São Paulo o Tribunal de Justiça concedeu um “feriado papal”. Esta decisão, que equivale à negação do caráter laico do Estado ou, melhor ainda, à afirmação da oficialidade do catolicismo, não causou estranhamento. Se a visita do Dalai Lala, do Aitolá Khamenei ou de um venerando rabino de Israel tivesse o mesmo tratamento certamente os católicos fariam um alarido danado. O Estado é laico diriam...


No Brasil os relógios derretem constantemente. Exatamente como no quadro de Dali não registram a progressão do tempo como deveriam. Colocamos fim ao regime monárquico, mas até hoje sustentamos os descendentes de D. Pedro deposto. A Guerra do Paraguai terminou em 1870, mas só há bem pouco tempo abolimos a famigerada pensão para as filhas maiores solteiras dos oficiais mortos (benefício criado para os voluntários da pátria, que os militares mantiveram quase dois séculos).


D. João bundão chegou ao Brasil em 1808 e logo criou os cartórios como uma forma de sustentar parte dos quase 15.000 vagabundos que o acompanharam. O Rei se foi, a monarquia lusobrasileira foi deposta, duas repúblicas foram abortadas por golpes militares, mas os cartórios ficaram, se multiplicaram e até derrubaram um Ministro da Desburocratização. Em pleno século XXI, entre cada “boca de fumo” e igreja o brasileiro vê pelo menos um cartório (de notas, de registro de pessoas naturais, de registro de pessoas jurídicas, de registro de imóveis, de protestos, de trambiques...) para encarecer a economia do país e sustentar a nobiliarquia republicana. Muitos cartórios e pouca saúde burocrática os males do Brasil são!


A censura foi abolida pela CF/88, é proibida pelos diplomas internacionais subscritos pelo Brasil (Declaração Universal dos Direitos do Homem, Convenção Americana de Direitos Humanos). Apesar disto, o Judiciário faz questão de aplicá-la com rigor revigorado. Curiosamente, quando suas decisões são ignoradas pelos internautas (a biografia do Roberto Carlos e o filminho sacana da Daniela Cicarelli ainda rolam na rede apesar da proibição judicial), em público, os incautos juizes silenciam. As crises de frustração deles deveriam ser filmadas e postadas na Internet?


Vivemos num regime republicano, portanto, sob o império da Lei? Nem tanto! Como o republicanismo brasileiro é atípico quem controlam o Estado se considera “mais igual” e, portanto, se comporta como se estivesse acima da Lei. E não poucos os “mais iguais” que são na verdade apenas marginais (como os Parlamentares que trocam votos por dinheiro ou os Juizes que vendem sentenças a traficantes).


O Brasil não é o país do futuro. Na verdade, nem mesmo tem um passado. Nosso passado foi inventado. Destruímos a memória de Cunhanbebe (o índio que resistiu ao invasor lusitano) e celebramos as virtudes de Peri ou lamentamos os defeitos de Macunaíma (dois índios fictícios). Nosso presente é um amalgama de permanências doentias, como a escravidão em fazendas de Senadores ou o catolicismo messiânico do bispo que pretendia parar a transposição do São Francisco morrendo de inanição. Como bom brasileiro, o bispo voltou a comer tão logo percebeu que sua morte era certa!


Salvador Dali pode ser considerado o mais brasileiro de todos os pintores espanhóis. Seu quadro "Persistência da Memória" é uma descrição pictórica fenomenal de todas as nossas idiossincrasias e idiotias.


Em primeiro plano a esquerda do quadro vemos um mosquito sobre um relógio deformado, como que anunciando a conquista de nossas cidades pelo vetor da dengue com ou sem ordem e progresso. Acima dele há uma arvore ressecada e solitária a representar nossa tolerância franciscana à destruição da flora. Ao fundo a direita uma montanha desprovida de cobertura vegetal parece indicar que não precisaremos nos esforçar muito para transformar este continente numa terra árida como Port Lligat, onde Dali morou. No centro, em primeiro plano, um animal disforme agoniza. Uma sutil representação das futuras gerações de brasileiros?


As alemãs Annette Leibing e Sibylle Benninghoff-Lühl organizaram uma série de artigos que denominaram DEVORANDO O TEMPO. O subtítulo da obra é bastante sugestivo: BRASIL, O PAÍS SEM MEMÓRIA. Num dos textos Annette afirma que


“...De acordo com DaMatta o esquecimento seletivo é uma característica típica brasileira – uma característica estreitamente ligada à memória.”


Um pouco mais adiante ela complementa:


“Se DaMatta tem razão e uma característica peculiar da cultura brasileira é o esquecimento seletivo – o desejo de um passado idealizado através da obliteração do que é considerado ruim – as pessoas senis foram incapazes de desenvolver esta capacidade de uma seleção tão valorizada e adoeceram por isto, ou, então, os ‘novos tempos’ trazem consigo uma individualização que atribui enorme peso ao indivíduo, principalmente às pessoas de idade, crescidas em outros tempos.”


A inversão feita por Annette (no Brasil doente não é quem esquece, mas, paradoxalmente, quem lembra) ajuda-nos a compreender porque podemos usar o quadro “Persistência da Memória” para explicar o país. Em 500 anos de existência o Brasil evoluiu, mas os brasileiros se esqueceram de não lembrar os velhos padrões culturais (destruição física e cultural de índios e negros, concessão de privilégios as algumas castas de servidores imperiais e republicanos, cartórios, trabalho escravo, emprego de militares contra o povo, etc.). É por isto que as reminiscências de uma sociedade colonial, ainda escravizam a realidade e comprometem o futuro.


Onde quer que esteja o colono sente-se um estranho. Trata de enriquecer e assegurar o desfrute de suas riquezas lá fora. O pragmatismo do colono o faz desumanizar todos à sua volta. Ele não deve ter ética e por isto mesmo não pode preserva a memória de seus atos porque os considera repugnantes. Nossos antepassados foram colonos e nós mesmos ainda nos comportamos como se fossemos estranhos no Novo Mundo.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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