REVISTA CRIAÇÃO

A POLÍTICA E O FRACASSO OCIDENTAL


O vocábulo "política" deriva do vocábulo grego "polis" (cidade).

Na Atenas de Péricles os cidadãos cuidavam dos interesses da cidade, ou seja, participavam das decisões legislativas, executivas e judiciárias. O mesmo não acontecia na vizinha Pérsia, onde apenas o imperador monopolizava o poder, delegando-o parcialmente a alguns de seus súditos (enquanto eles se mantivessem submissos).

Entre os gregos a política era produto da livre interação entre cidadãos livres. Na Pérsia não havia nem liberdade nem política, mas somente submissão e medo.

Roma mesclou os dois universos. Desde a República havia cidadãos livres que decidiam os destinos da cidade, mas havia uma classe de cidadãos que era afastada das decisões públicas (a plebe). Mesmo depois que a plebe passou a interferir na vida da cidade (retirada para o monte Sacro e criação dos Tribunos da Plebe), a política ainda continuava sendo um assunto prioritariamente dos patrícios.

A Idade Média reproduziu o universo romano, excluindo da política todos os que não fossem clérigos, reis e nobres. Durante a Revolução Francesa o povo exerceu diretamente o poder, mas como a revolução foi interrompida novamente a política se tornou um monopólio de alguns (os poderosos e ricos burgueses que cercavam Napoleão).

Através de uma revolução interrompida chegamos ao republicanismo moderno, em que a idéia de política foi completamente deformada. A grande maioria da população "vota", mas apenas "vota". Não tem qualquer controle sobre as decisões executivas, legislativas e judiciárias. Não pode nem destituir seus representantes, porque eles cercam-se de privilégios e dignidades.

Em nossas repúblicas, há uma classe de pessoas especializadas para cuidar dos interesses públicos. Pessoas que muitas vezes usam seu poder para satisfazer as próprias veleidades.

Os "donos" dos três poderes usam-nos para manter o restante da população num silêncio obsequioso inclusive usando a força, se necessário for. Não há espaço para a política, porque a liberdade para interferir nos destinos da coisa pública é pequena ou inexistente.

A quem nós enganamos quando dizemos que vivemos em democracias, quando afirmamos que há política em nossas sociedades? Enganamos apenas a nós mesmos.

Nossas repúblicas "high techs" se parecem mais com a Pérsia de Dário do que com a Atenas de Péricles. É justamente por isto que as eleições se transformaram mais num espetáculo do que num momento de reflexão, debate e decisão.

O espetáculo não é apenas o atributo de algumas administrações, como a do Bush nos EUA ou a do Lula no Brasil. Ele é a essência de nossos regimes ocidentais "não políticos" que limitam ou reprimem a participação da maioria da população. O espetáculo é a prova de nosso próprio fracasso em atribuir ao vocábulo "política" seu verdadeiro conteúdo.

Mas nem tudo está perdido. Este ano a CAMPANHA DO VOTO NULO recuperou a capacidade da população de interferir diretamente na vida pública, portanto, de fazer “política”.

Nossa jornada de retorno ao conceito ateniense de “polis” somente está começando. Não serão poucos os obstáculos que teremos que remover no caminho. Os que se beneficiam de nossa inércia tentarão nos impedir de seguir adiante. Mas a vontade de interferir e o destemor diante dos adversários da política serão nossas armas e escudos nessa saga de retorno da população à vida pública.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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