É
POSSÍVEL DEMOCRATIZAR O OCIDENTE?
A morte de Benazir
Bhutto num atentado que muito provavelmente foi executado por um fundamentalista
islâmico reacendeu o debate sobre o Oriente Médio. Os
papagaios da Casa Branca já começaram a lamentar o fato
de que é difícil construir uma “democracia islâmica”
naquela região por causa da natureza da religião dos
paquistaneses.
Tomo a liberdade de entrar na discussão porque percebi que
os defensores da política externa de Bush II partem de dois
pressupostos errados: 1) O ocidente cristão é democrático;
2) O islamismo é antidemocrático por causa de suas características.
Já disse em outro lugar e torno a repetir. O que chamamos DEMOCRACIA
é na verdade LIBERALISMO OLIGÁRQUICO.
Voltemos no tempo. A "democracia" foi o regime criado por
Clístenes e aperfeiçoado por Péricles. Seu apogeu
foi no século IV AC.
Democracia quer dizer literalmente “poder” do “demos”.
O vocábulo “demos” designa az forma pela qual a
sociedade ateniense foi dividida por Clístenes. Para entender
melhor a novidade criada pelo reformador das instituições
atenienses é preciso lembrar que as Cidades-Estado foram criadas
à força.
À medida que a primeira Guerra Médica se aproximava
os maiores núcleos populacionais gregos (Atenas, Esparta e
outros) fortificaram seu perímetro e forçaram às
populações rurais a abandonarem as aldeias e a se transferirem
para a cidade. A reação popular a este processo, conhecido
como sinecismo, foi grande e a absorção das populações
das aldeias pelas cidades acabou sendo executada à força.
No princípio, os novos habitantes de Atenas não tinham
como interferir nos destinos da cidade e isto acarretou uma crise
que acabou sendo resolvida com a democracia. O sistema adotado por
Clístenes possibilitou a todos os cidadão participarem
da administração pública, da elaboração
das leis e da distribuição justiça. Péricles
aperfeiçoou o sistema ao possibilitar que os cidadãos
mais pobres participassem da vida pública mediante remuneração.
O que conhecemos como “democracia representativa” está
a anos luz da democracia ateniense. Na verdade o regime político
adotado no Ocidente Cristão (no Brasil também) se parece
muito mais com o que havia em Esparta, Cidade-Estado que era governada
por uma “oligarquia”. O vocábulo “oligarquia”
quer dizer literalmente governo dos mais ricos.
Nas chamadas “democracias representativas” ocidentais
todos podem se candidatar a um cargo público. Na prática,
entretanto, o acesso aos cargos do Poder Executivo e do Poder Legislativo
é um privilégio das pessoas ricas ou muito ricas, porque
as campanhas são milionárias. Mesmo que ingresse num
Partido Político, o cidadão acaba sendo submetido ao
poder dos caciques que controlam as estruturas e verbas partidárias.
E os caciques dos partidos já eram ricos ou enriqueceram ao
longo de suas carreiras políticas.
O acesso aos cargos do Poder Judiciário também é
vetado aos cidadãos de baixa renda de duas maneiras. Quem não
tem formação universitária em Direito não
pode concorrer a um cargo de magistrado. Mesmo que consiga cursar
uma universidade pública ou particular o candidato esbarrará
num obstáculo praticamente intransponível: os critérios
de seleção são dúbios, exames orais são
exigidos e o candidato fica à mercê dos preconceitos
daqueles que dominam a cena jurídica e ficam tentados a colocar
seus filhos nos cargos vagos.
Na “democracia representativa”, salvo raríssimas
exceções, o Estado só espera do povo três
coisas: votar, se submeter à vontade do governante ou ser submetido
á força.
Portanto, o regime que predomina no Ocidente não é a
“democracia”, mas a “oligarquia”. Para ser
mais preciso num “liberalismo oligárquico”, pois
o vocábulo “liberalismo” designa os direitos e
garantias individuais e econômicas concedidos à população
de baixa renda. Dentre os quais se destaca consumir segundo suas posses.
O islamismo não pode ser necessariamente considerado antidemocrático.
De fato, no apogeu da civilização islâmica e durante
quase 200 anos cristãos e judeus viveram pacificamente nas
terras dominadas pelos califas. A única coisa que os islâmicos
exigiam dos “povos do livro” (como eram chamados os cristãos
e judeus) era o pagamento de um imposto para poderem realizar seus
cultos. Desde que pagassem este imposto os “povos do livro”
eram deixados em paz e não foram poucos judeus e cristãos
que prosperaram bastante sob o islamismo.
A “democracia religiosa” que existia no Oriente Médio
foi perturbada apenas no século XI quando começaram
as Cruzadas. Nunca é demais lembrar que estas campanhas militares
violentas foram desencadeadas pelos cristãos. Aliás,
quando os cruzados conquistaram Jerusalém até cristãos
e judeus foram passados no fio da espada pelos intolerantes e brutais
guerreiros da cristandade.
Atualmente, em vários paises islâmicos há um regime
muito parecido com o “liberalismo oligárquico”
ocidental. Abaixo do líder (político ou religioso) há
uma elite econômica que ajuda a sustentá-lo e que se
beneficia dos favores, cargos e contratos públicos.
Dizer que o islamismo é especialmente violento por causa de
atentados políticos praticados por fundamentalistas é
um absurdo. Atentados políticos também ocorrem no Ocidente.
Será demais lembrar que Itzhak Rabin, Primeiro Ministro de
Israel, morreu num atentado praticado por um judeu? Quantos foram
os presidentes dos EUA que morreram em atentados executados por americanos?
Quantos ocupantes da Casa Branca sobreviveram a atentados praticados
com armas de fogo?
Esta quimera “democracia ocidental x islamismo antidemocrático”
é produto da mente doentia de Bush II e seus assessores e admiradores
na mídia. A extrema direita norte-americana queria um motivo
para invadir o Iraque e alegou que pretendia “construir uma
democracia islâmica” porque não podia admitir publicamente
que desejava unicamente outra coisa (o petróleo iraquiano).
A propósito, a Casa Branca diz que constrói democracias,
mas sempre conviveu pacificamente com ditadores desde que eles fossem
cordiais aos interesses americanos. Os exemplos da ligação
entre americanos e ditadores são tantos que somente citarei
alguns: Franco na Espanha, Ferdinando Marcos nas Filipinas, Suharto
na Indonésia, Somoza na Nicarágua, Fulgêncio Batista
em Cuba, Pinochet no Chile, Costa e Silva no Brasil, Saddan Hussein
até 1991 no Iraque, etc. Na verdade os americanos fizeram questão
de ajudar vários ditadores chegar ao poder, como o Xá
Reza Pahlevi no Irã, Noriega na Nicaragua, Suharto na Indonésia,
etc. A quimera da construção de uma “democracia
islâmica” não tem qualquer fundamento histórico
ou fático. Mas é claro que vocês podem acreditar
nela. Muitos já não acreditam em anjos ou Papai-Noel?
Fábio
de Oliveira Ribeiro