REVISTA CRIAÇÃO

QUANDO MORRE O HOMEM, NASCE A PERSONAGEM


Há algum tempo defendi a tese de que uma pessoa que deixou a arena pública não deveria mais ser molestada. A vida privada do político só interessa à comunidade enquanto ele desempenha uma função pública. Quando já não tem um cargo socialmente relevante nem é remunerado pelos contribuintes deve ser tratado como um cidadão comum.


O mesmo raciocínio não se aplica ao político que morreu. Afinal, o falecido já não é nem mesmo um cidadão comum. É apenas matéria inerte (como dizem os médicos). Com o tempo nem isto será mais. De todos os grandes estadistas da Antiguidade nem pó restou.


Mas se viram pó, se com o tempo nem seus resíduos corporais podem ser localizados, os seres humanos deixam memórias (que podem ser concretas ou não). Nesse sentido, podemos dizer que ao morrer cada homem vira um personagem. A maioria de nós se torna personagem de nossos parentes, amigos e inimigos que sobreviveram. Alguns se tornam personagens de comunidades maiores (locais, regionais e nacionais). Poucos se tornam personagens transnacionais ou conhecem a glória de entrar para a história influenciando de alguma forma as gerações futuras.


Que podemos falar de ACM? Como cidadãos, praticamente nada. Alguns o conheciam e amavam, outros o odiavam mesmo sem o conhecer pessoalmente. Nunca fui seu fã e sempre que pude espalhei boatos acerca do "Toninho Malvadeza". Afinal, um dos modos de ser do político é aquele que seus desafetos criam e difundem como uma maneira de limitar sua influência social, econômica e política.


Mas agora ACM está morto. Portanto, não tem mais condições de exercer qualquer tipo de poder. Sua face pública alimentada pelos amigos e inimigos também está destinada a perecer. A partir de agora ele é apenas uma personagem. Mas não é certamente uma personagem como qualquer um de nós. Afinal, ACM deixou muitos rastros e projetou sua personalidade sobre a Bahia e o Brasil por décadas.


Nesse sentido, ao invés de perguntar se ACM foi bom ou mal, deveríamos levantar outros questionamentos. Os historiadores se ocuparão de ACM? Quando isto ocorrerá? ACM deixou uma obra digna de ser cultuada pelas gerações futuras? Chegará ACM a se transformar num ícone da história do Brasil? Com a palavra os historiadores.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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