QUE
FAZER QUANDO O MONSTRO VIRA O CÔMICO?
“O cineasta
Oliver Stone está rodando um filme sobre a vida do presidente
dos EUA, George W. Bush. "W" vai mostrar imagens de Bush,
aos 26 anos, batendo o carro no gramado da casa de seus pais em Washington,
e, quando já presidente, roubando de brincadeira uma bala de
menta da secretária de Estado Condoleezza Rice. "Ele é
desajeitado, comete gafes e faz caretas. Não é um presidente
qualquer. Então vamos nos divertir com isso!", disse o
diretor.”
(http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?cnt_id=28&tma_id=1669)
Durante décadas Al Capone foi uma dor de cabeça de muitos
norte-americanos. Além de ser um gangster impiedoso, o mafioso
gozava de boa reputação entre os pobres e cortejava
constantemente a imprensa. Capone foi uma celebridade penumbrante
e as autoridades que tentavam apanhá-lo acabavam sendo odiadas
pelo seu séqüito de admiradores.
A vida de Al Capone foi transposta várias vezes para o cinema.
O filme protagonizado por Robert de Niro e Kevin Costner se destaca
pela clara oposição entre a personalidade recatada de
Elliot Ness em oposição à personalidade expansiva
de Capone. O diretor Brian de Palma explorou de maneira brilhante
as relações entre o mafioso e a imprensa.
Como Al Capone, Bush II é um criminoso impiedoso. Iniciou uma
guerra imotivada e ilegal no Iraque com base em documentos falsos
e alegações mentirosas. A guerra de Bush II resultou
em prejuízos econômicos incalculáveis para o Iraque,
acarretou milhares de mortes desnecessárias, centenas de prisioneiros
sem julgamento e dezenas de inocentes torturados em Abu Graib com
autorização do Secretário de Defesa que ele nomeou.
Tecnicamente, se não fosse o Presidente da nação
militarmente mais poderosa do planeta Bush poderia muito bem ser considerado
o maior criminoso de guerra do século XXI.
Mesmo assim Oliver Stone pretende, por razões políticas
e econômicas desconhecidas, seguir a trilha aberta por Brian
de Palma. O diretor de “Platoon” e “Nascido em 4
de julho” pretende transformar o criminoso de guerra em personagem
cinematográfico. Mas ao contrário de Brian de Palma,
que não fez a glorificação do crime nem absolveu
Al Capone de seus atos criminosos na tela grande, Oliver Stone pretende
nos vender uma versão caricata e cômica do senhor Bush.
É como se ele dissesse:
“Olhem como o W. Bush é engraçadinho, inofensivo
e infantil. Não pode ser um criminoso de guerra, certo!”
Errado!!!
Oliver Stone está comprometendo sua carreira? Penso que não.
Em razão do crescimento do nacionalismo doentio e do fanatismo
religioso nos EUA, Stone se tornará o interlocutor da geração
que levou Bush ao poder e que o apóia apesar dele ser um criminoso
de guerra (ou exatamente por causa disto). De Palma está empenhando
toda sua imagem de homem pacifista e contrário à Guerra
do Vietnan para salvar a imagem dos EUA durante esta Guerra do Iraque
na medida em que isenta o senhor Bush II de qualquer responsabilidade
pelos seus crimes.
“Olhem como o W. Bush é engraçadinho, inofensivo
e infantil. Não pode ser um criminoso de guerra, certo!”
Depois da difusão, aclamação e premiação
deste novo clássico, nenhum político americano terá
condições de levar Bush à justiça. E quando
alguém protestar ou afirmar que o filme não retrata
a realidade, os seguidores do senhor da guerra dirão “Mas
você não assistiu ao filme do Oliver Stone? Assistiu?
Então não o entendeu!” Francamente... acho que
Calígula tinha um pouco mais de humildade, humanidade e hombridade
que este monstro que comanda a nação mais poderosa do
planeta e que agora se tornará o cômico numero um do
Oliver Stone.
Fábio de Oliveira Ribeiro