RESUMO
DE UM DEBATE ESSENCIAL
O debate que propus
no ORKUT sobre a abertura dos arquivos da ditadura gerou uma tremenda
polêmica com centenas de manifestações
(http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4249&tid
=2512510032278698928&na=2&nst=346) Em razão de
ter proposto o debate é minha a obrigação de
tentar organizar as idéias que foram aqui expostas.
Muitos debatedores postaram comentários dizendo que TODOS OS
ARQUIVOS deveriam ser abertos (os que se referem aos crimes cometidos
pelos militantes de esquerda e os que foram produzidos pelos órgãos
de repressão e revelarão os crimes cometidos pelos torturadores).
Quem defende esta tese e não faz a pergunta PORQUE OS DOCUMENTOS
AINDA NÃO FORAM EXIBIDOS? procura apenas desviar a atenção
dos leitores.
A anistia também beneficiou os torturadores. Formalmente eles
não podem ser julgados pelos crimes de tortura e pelas execuções
que praticaram. Qualquer norma legal que for aprovada para possibilitar
sua punição seria inconstitucional pois a CF88 proíbe
expressamente a retroatividade da Lei Penal mais severa. Os documentos
estão sob custódia de militares, portanto, se os guardiões
dos arquivos tivessem interesse ou quisessem já teriam digitalizado
e publicado na Internet todos os documentos (inclusive os referentes
aos crimes dos militantes de esquerda) de maneira que os cidadãos
poderiam pesquisar a história do Brasil.
Algumas pessoas disseram que a esquerda não aceita a divulgação
de todos os documentos e pretende preservar a imagem de terroristas
conhecidos e que ocupam ou ocuparam postos no governo Lula. A falácia
deste argumento é evidente. Todos os documentos são
conservados por militares e, portanto, eles não precisam do
aval da esquerda para divulgar o conteúdo de peças que
já fizeram parte de Inquéritos e Processos movidos contra
ex-guerrilheiros. Na verdade os militares não estão
obrigados a entregar os documentos para uma prévia seleção
que beneficiaria os supostos terroristas. Podem divulgar tudo a qualquer
momento. Não fazem isto porque pretendem preservar a imagem
de oficiais da ativa e militares aposentados.
Muitos que compareceram ao debate disseram que os militares eram nacionalistas,
que eles lutavam contra comunistas. Disseram também que a ideologia
marxista-leninista é nociva aos interesses nacionais. Entretanto,
sob o ponto de vista estritamente filosófico o nacionalismo
de direita também é uma ideologia. Uma ideologia intolerante
porque procura a destruição de outras ideologias. Todos
os nacionalismos modernos (inclusive o nacionalismo brasileiro forjado
na Escola Superior de Guerra) são construções
intelectuais desprovidos de base científica e histórica
(sobre o assunto ler http://br.geocities.com/revistacriacao2001/mito_nacoes.htm
).
Todos os que defenderam o nacionalismo de direita imposto ao Brasil
a partir de 1964 partem do pressuposto de que esta ideologia devia
prevalecer. Sob seus argumentos podemos identificar um componente
básico da intolerância política de direita: nossa
ideologia é melhor porque é superior moral, ética
ou religiosamente. Assim as semelhanças entre o nacionalismo
de direita brasileiro e o nazismo alemão são evidentes.
Contudo, como mestiços (descendentes de negros, índios,
portugueses, alemães, japoneses, etc...) o conceito de “pureza
racial” não podia ser adotado no Brasil. Portanto, os
ideólogos do nacionalismo de direita descartaram o viés
biológico de sua versão do nazismo, não sem preservar
sua brutalidade e intolerância em relação às
ideologias de esquerda.
A superioridade moral do nacionalismo de direita brasileiro que dominou
as décadas de 1960/1970 é uma mentira. Os militares
e seus amigos enriqueceram às custas do erário público,
usaram da violência para calar o movimento operário rebaixando
a participação dos salários no PIB, se mantiveram
no poder contra a vontade de uma parcela da população
e mediante a censura da imprensa. A superioridade religiosa dos integrantes
e defensores do regime totalitário também é uma
falácia. Eles se diziam cristãos e, no entanto, perseguiam,
espancavam e matavam seus concidadãos. Não há
uma só palavra no Novo Testamento justificando o uso da violência.
O argumento da força é evidente em várias manifestações.
Os militares tinham o direito de matar e torturar porque estavam em
guerra. Não cometeram crimes porque a venceram. Os militantes
de esquerda deviam ser torturados e mortos porque estavam desarmados
ou mal treinados e foram vencidos.
Contudo, se os milicianos de esquerda eram criminosos e deviam ser
tratados como criminosos, os militares tinham a obrigação
de resguardar sua integridade física e moral na forma da legislação
da época e isto não ocorreu. O Brasil era signatário
da Convenção Americana de Direitos Humanos e da Declaração
Universal dos Direitos do Homem, diplomas que proíbem expressamente
a tortura e a execução de prisioneiros.
Ainda que encaremos a atuação da repressão sob
a ótica estritamente militar a justificativa da tortura e da
execução de prisioneiros é inexistente. O uso
da tortura e da execução sumária são proibidos
em tempos de guerra. A atuação das forças armadas
brasileiras o período 1964/1988 foi ilegal porque violou a
Convenção de Genebra (diploma aplicável em tempo
de guerra externa ou civil).
Alguns dos participantes insinuaram ou disseram abertamente que sou
petista. Contudo, fiz campanha do voto nulo dentre outros motivos
porque Lula se comprometeu com o sigilo dos arquivos da ditadura.
Outros, provavelmente são militares aposentados que tiveram
alguma participação durante os anos de chumbo, pois
se referiram a mim como se fosse um comunista da década de
1964/1970. Nasci em 1964 e atualmente até que estou satisfeito
com o capitalismo (tanto que quero até MINHA história,
algo que os militares se recusam a me entregar certamente porque são
anarquistas). Os mais exaltados, considerando que sou filho de comunista
ou terrorista, consideraram que poderia ter sido molestado. Do ato
de seu conhecimento jurídico, consideram que uma criança
poderia ser responsabilizada pelos atos de seu pai. Os tais se dariam
bem como juizes sob a batuta de Torquemada durante a Inquisição
espanhola.
Dos que participaram
do debate poucos usaram seu nome. Os mais exaltados e agressivos defensores
da ditadura preferiram ficar sob o manto do anonimato ou usar nics
. Ao contrário deste humilde debatedor e de uns poucos cidadãos
que nada tem a temer ao expor suas opiniões, nenhum dos defensores
da ditadura poderia ser facilmente localizado pela imprensa. Vivem
no anonimato. Devem sonhar com os tempos em que não seriam
obrigados a se esconder sob pseudônimos.
Por enquanto é só. A vitória da tese de necessidade
da abertura dos arquivos é evidente. Mas o debate ainda não
acabou.
Fábio de Oliveira Ribeiro