REVISTA CRIAÇÃO

O SENHOR DOS ANÉIS E O RACISMO

Não demorou muito para que um militante do movimento negro julgasse a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS uma obra racista. A tese do desafeto de Tolkein é absolutamente singela e pode ser resumida da seguinte maneira:- os orcs, servos de uma divindade maligna, são representados no cinema como negróides, vivem na penumbra, alimentam-se de carne humana e pretendem dominar pela força a Terra Média; os hobits e cavaleiros, brancos de olhos claros, habitam cidades ensolaradas e, amparados pelo bem, lutam para preservar sua própria existência.

A conclusão do afro-brasileiro de que a obra é racista parece óbvia. Haveria uma suposta conspiração contra os seres humanos de pele negra na medida em que eles podem ser identificados com os malvados orcs. Os africanos e seus descendentes seriam, portanto, desvalorizados através do livro e do filme.

Não tem qualquer fundamento a polêmica sobre o racismo de Tolkein. Como aparenta ser fruto de desinformação, a acusação pode ser desfeita em alguns parágrafos.

As pessoas que julgaram O SENHOR DOS ANÉIS racista deveriam estudar um pouco mais o universo simbólico humano e a mitologia comparada. Se fizerem isto irão descobrir que a identificação entre bem/luz/branco e mal/escuro/negro não é racista.

Desde tempos imemoriais a cor negra é valorizada de forma negativa. Diversas culturas associaram o mal à escuridão noturna e ao terror que a ausência de luz inspira nos seres humanos. A origem mais remota desta associação pode ser biológica.

Nosso principal sentido é, sem dúvida alguma, o da visão. Desde de o nascimento somos atraídos pela luz e pelas cores claras porque a visão humana é diurna. Mesmo desconhecendo a valorização negativa da noite as crianças sofrem de terror noturno. Quando são privados da visão pela escuridão seres humanos adultos também se sentem profundamente desorientados e inseguros.

A cultura mantém uma relação intima com a natureza humana. É por isto que a repugnância natural que os seres humanos sentem pelo escuro encontra sua expressão cultural nos mais variados povos. Diversos mitos e religiões associam as divindades benignas ao dia, ao branco e à luz. As divindades malignas sempre são associadas à noite, à escuridão e a cor negra.

Entre os bambara, nação negróide africana, a divindade maligna MUSSO-KORONI representa a noite, as trevas, a confusão e o sofrimento. Entretanto, suas maldades são desfeitas pelo benigno deus FARO, que é representado como sendo um ser humano de pele branca (DURAND, Gilbert As Estruturas Antropológicas do Imaginário, Martins Fontes, São Paulo, 2001).

O ancestral mitológico divinizado dos polinésios, TIKI, também é representado como sendo um homem branco. O mesmo ocorre com KON-TIKI, deus incaico do sol. As semelhanças entre ambos levaram o antropólogo e aventureiro Thor Heyerdahl a formular a hipótese de que ambos são, na verdade, a mesma divindade. Segundo o norueguês o culto de TIKI teria sido introduzido na polinésia por incas que atravessaram o Oceano Pacífico em embarcações muito rústicas (HEYERDAHL, Thor A expedição Kon-Tiki, Melhoramentos, São Paulo, 1959).

Quando é representado sob a forma humana, QUETZACOATL, deus benigno asteca da educação, tem a pele clara e a barba branca (CAMPBELL, Joseph As Mascaras de Deus, Mitologia Primitiva, Palas Athena, São Paulo, 1994). Portanto, a valorização da cor branca é um padrão universal. Note-se que, a exemplo dos polinésios e incas, os astecas também tinham a pele bem mais escura que a dos europeus.

Não é difícil perceber que a dicotomia feita em O SENHOR DOS ANÉIS entre bem/luz/branco e mal/escuro/negro encontra fundamento até mesmo na cultura tradicional africana, pré-colombiana e polinésia. Portanto, Tolkein não pode ser considerado racista.O afro-brasileiro que o considerou preconceituoso deveria estudar um pouco mais antes de se arriscar em tão movediço território.

O maniqueísmo de O SENHOR DOS ANÉIS está solidamente ancorado em elementos de tradições culturais diversas. A obra encontra ressonância profunda na psique humana. Tolkein não defende nem poderia defender a idéia de superioridade da raça branca como pretende seu crítico.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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