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SOBRE OS JORNALISTAS, OS JUIZES E A INTERNET Assim como os membros do Poder Judiciário, desde sempre desacostumados a aceitar qualquer tipo de critica pública, não poucos jornalistas sentem-se incomodados na alça de mira dos internautas. Não deixa de ser irônico o fato de jornalistas e juizes estarem juntos no banco dos réus virtual. Durante a Ditadura, não existiam condições ideológicas ou técnicas da população manifestar-se. Os jornalistas tinham o monopólio da crítica, mas não se arriscavam a cutucar muito os juizes em razão da mordaça imposta pela Lei de Imprensa. A famigerada Lei de Imprensa considerava crime ofender publicamente uma autoridade. Como os Juizes julgavam as ofensas feitas aos seus colegas de toga ninguém queria correr o risco de ser linchado com base na referida Lei. O fim da Ditadura em 1988 conferiu ao cidadão as condições jurídicas de se manifestar. A popularização da Internet no final da década de 1990 colocou em cena o cidadão comum. Agora os juizes e os jornalistas sentem-se melindrados. Os primeiros gostariam do silêncio do público como na Ditadura, os segundos sentem saudade do tempo em que tinham o monopólio do debate em público. A avalanche de informação proporcionada em uma década de Internet é formidável. A proliferação de jornais e revistas “on line”, de blogs e páginas eletrônicas, condenou a Lei de Imprensa a uma rápida obsolescência. É simplesmente impossível investigar e punir todas as ofensas feitas às autoridades na rede mundial de computadores. As ofensas postadas em provedores fora do Brasil são as potencialmente mais destrutivas, pois as autoridades brasileiras não têm poder para, por exemplo, exigir informações fora das fronteiras do país. E não são poucos os brasileiros que desafiam as autoridades judiciárias, chamando-as (com ou sem razão) de incompetentes, autoritárias e corruptas. Os juizes e os jornalistas têm sido especialmente patrulhados. Os primeiros porque pertencem a uma corporação sustentada pelo contribuinte e avessa a qualquer tipo de transparência (você sabia, por exemplo, que ninguém tem acesso às decisões dos processos administrativos movidos contra os juizes?). Os segundos por serem considerados aliados dos poderosos. Os mesmos poderosos de sempre, que além de serem os donos de diversos partidos políticos também são os proprietários de inúmeros jornais e revistas, e quase a totalidade das retransmissoras de rádio e de TV. Ao que parece muitos juizes e jornalistas não querem que a população exerça efetivamente seu direito à liberdade de consciência e de expressão (principalmente quando eles são alvos das criticas ácidas, irônicas, sarcásticas e destrutivas na Internet). Contudo, os jornalistas exercem uma atividade que é do interesse do público, portanto, o público tem todo o direito de questioná-los. Os juizes, por sua vez, são servidores públicos pagos com os impostos dos cidadãos e deveriam escutar as reclamações de seus empregadores com resignação. Até porque, ao contrário da maioria dos contribuintes, os juizes desfrutam salários gordos e aposentadorias gratificantes. Apesar de jornalistas e juizes estarem no banco dos réus virtual, isto não quer dizer que eles se comportem todos da mesma forma. Não são poucos os jornalistas que já desceram ou se dispõe a descer do pedestal. Alguns até admitem publicamente debater com os internautas. Este é o caso, por exemplo, do jornalista Carlos Castilho (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=2). Castilho tem dado uma verdadeira lição de humanidade, humildade intelectual e filosofia da comunicação! Ao contrário de muitos jornalistas ele não considera os leitores uma ficção. A maioria dos jornalistas parece escrever como se todo seu público fosse ignorante, desinformado e incapaz de desenvolver qualquer percepção do mundo sem sua ajuda. Quando são obrigados a se confrontar com a realidade, ou seja, com o leitor de carne e osso, que pensa, discorda e percebe a realidade de outra maneira muitos jornalistas ficam atordoados. Alguns fogem do debate sob o pretexto de que os leitores são tendenciosos e não estão qualificados para debater. Esta posição, que mascara o fato de que os próprios jornalistas também podem ser e muitas vezes efetivamente são tendenciosos, é elitista, aristocrática (e, portanto, fadada ao lixo da história virtual). Outros jornalistas se sentem tentados a fingir que está tudo bem. Conferem ao leitor a possibilidade de fazer críticas “on line”, mas somente dão crédito as próprias palavras e as de seus colegas de profissão. Esta curiosa posição, em tudo similar a atitude do avestruz diante do perigo, tende a tornar o jornalista burocrático, tedioso e irrelevante (às vezes menos interessante do que seus comentaristas virtuais). A posição publicamente adotada pelo Carlos Castilho é exemplar. Ele debate publica e abertamente com seus leitores através de seu blog. Sua atitude corajosa, realista e, sobretudo, perfeitamente adequada às necessidades criadas pela inovação tecnológica transforma-o numa espécie de Moisés. Através de seu blog Castilho tenta fazer seus colegas, portanto, seu povo, atravessar em segurança o mar dos monólogos jornalísticos para que cheguem à terra prometida dos diálogos virtuais. Aqueles que não o seguirem certamente serão afogados pela Internet, o que não deixará de ser útil (para os internautas, é claro). Como o juizes são mais reservados e o Judiciário uma verdadeira Caixa Preta (danificada, lenta e, sobretudo, pouco confiável) os internautas não devem ter muitas esperanças. Será necessário continuar a correr riscos. Quanto mais os pretensos semi-deuses togados se sentirem incomodados maior será a probabilidade do debate sobre as mazelas judiciárias se tornarem intensas e quem sabe até públicas. O público, que paga os salários gordos e aposentadorias gratificantes de suas excelências, tem todo direito de participar do debate, de julgar e publicamente condenar seus empregadinhos togados (quer eles gostem, quer não gostem também). De qualquer maneira, parece que estamos purgando os últimos resíduos tóxicos da ditadura. Os jornalistas, mais do que quaisquer outros profissionais sofreram na pele o poder onipresente da censura. Muito embora alguns tenham desenvolvido técnicas para burlar a repressão, a "cultura brasileira” ficou marcada pelos anos de chumbo. Como o silêncio era forçado, os senhores juizes se sentiam seguros (seguros até demais, tanto que não poucos têm usado suas prerrogativas para finalidades criminosas). A ausência de manifestação do público dava aos jornalistas a ilusão de que nunca poderiam ou seriam criticados. Com a democracia e a Internet até mesmo os juizes e os jornalistas podem ser publicamente criticados. Alguns, entretanto, ainda reagem como se pudessem calar a boca dos descontentes. Serão necessárias uma ou duas gerações de cidadãos, jornalistas e juizes educados sob a égide da nova tecnologia para que o terror à crítica desapareça e a cooperação entre os atores sociais se torne maior. Com o tempo os próprios cidadãos/internautas se acostumarão à nova realidade e certamente começarão a patrulhar os excessos eventualmente cometidos. Mas no fim das contas a Internet será um excelente instrumento de aperfeiçoamento da sociedade brasileira, do jornalismo e do poder judiciário. Isto se nossa tendência latina ao totalitarismo, à repressão política e ideológica não se tornar pública novamente. Fábio de Oliveira Ribeiro |