REVISTA CRIAÇÃO

SOBRE A TELEVISÃO


O livro de Pierre Bourdieu (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Bourdieu), publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor, é composto por três textos que se relacionam em razão de tratarem do jornalismo e sua influência socio-cultural. Resenharemos o primeiro texto, que é mais abrangente e dá o nome ao livro.

A primeira questão importante abordada no livro é o acesso dos intelectuais à televisão. Bourdieu relata que existem três posturas correntes entre seus colegas: rejeição de submissão à dinâmica televisiva e recusa de utilizar o meio, submissão às limitações da televisão para desfrutar de popularidade e uso restrito da televisão como meio de difusão cultural desde que as condições de acesso sejam negociadas.

Para o autor a televisão é um poderoso instrumento inconsciente de censura. "As pessoas, de maneira geral, não gostam muito de ser tomadas como objetos, objetivadas, e os jornalistas ainda menos que as outras. Ele se sentem alfinetados, quando, ao contrário, quanto mais se avança na análise de um meio, mais se é levado a isentar os indivíduos de sua responsabilidade - o que não quer dizer que se justifique tudo que passa ali -, e quanto melhor se compreende como ele funciona, mais se compreende também que aqueles que dele participam são tão manipulados quanto manipuladores. Manipulam mesmo tanto melhor, bem freqüentemente, quanto mais manipulados são eles próprios e mais inconscientes de sê-lo."

A manipulação ocorreria porque a exemplo de outros meios de comunicação a TV depende das notícias de variedades: sangue, sexo, drama e crime. "As notícias de variedades consistem numa espécie elementar, rudimentar, da informação que é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter conseqüências e porque ocupa tempo, tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa."

Segundo Bourdieu a televisão não manipula só pelo que transmite, mas sobretudo pelo que omite. É por isto que ele insiste na tese de que a "...televisão tem uma espécie de monopólio de fato sobre a formação das cabeças de uma parcela muito importante da população. Ora, ao insistir nas variedades, preenchendo esse tempo raro com o vazio, com nada ou quase nada, afastam-se as informações pertinentes que deveria possuir o cidadão para exercer seus direitos democráticos."

Para compreender a crítica feita por Bourdieu é preciso tem em mente que a mesma remonta ao tempo em que a televisão reinava onipresente como único meio unidirecional de difusão de conteúdos imagético-sonoros. Único porque a Internet ainda estava engatinhando. Unidirecional porque não existiam condições técnicas de interatividade. Com a popularização da Internet a crítica da televisão feita pelo sociólogo francês perdeu parcialmente sua validade. A própria televisão está passando por mudanças significativas para ajustar-se à crescente interatividade e a concorrência da Internet. Além disto, atualmente qualquer pessoa ou grupo pode produzir e difundir conteúdos pela rede mundial de computadores.

Mesmo assim, o livro é importante porque nos ajuda a compreender o universo do jornalismo e a própria TV. Afinal, fomos acostumados a informação através da telinha luminosa e dar crédito aos jornalistas de televisão. Mas os jornalistas “...grosso modo, interessam-se pelo excepcional, pelo que é excepcional para eles. O que pode ser banal para outros poderá ser extraordinário para eles ou ao contrário.” Segundo Bourdieu essa “...busca interessada, encarniçada, do extra-ordinário pode ter, tanto quanto as instruções diretamente políticas ou as autocensuras inspiradas pelo temor da exclusão, efeitos políticos. Dispondo dessa força excepcional que é a da imagem televisiva, os jornalistas podem produzir efeitos sem equivalentes.”

A partir deste ponto o sociólogo desvia o curso de sua crítica do jornalismo, do meio técnico e da programação de televisão. Passa a tratar da utilização política que alguns grupos podem fazer da mesma. O tom geral da crítica é alarmista. O autor afirmar que caminhamos para um mundo em que a “...a televisão se torna o árbitro do acesso à existência social e política.”

O conteúdo e a ênfase da preocupação de Pierre Bourdieu mereceria atenção se a tecnologia da comunicação estacionasse na televisão unidirecional. Isto não ocorreu. Atualmente a própria televisão sofre a pressão da Internet, onde todos usuários podem comunicar-se com todos os demais o tempo todo. Além disto, todas as pessoas a grupos adquiriram direito à existência política e social através da rede mundial de computadores. Não é preciso muito conhecimento ou dinheiro para produzir programas de TV e difundi-los através do youtube, usando webcams, máquinas digitais ou filmadoras portáteis e recursos do Windows como o moviemaker.

De qualquer maneira, culpar a TV pelo mal uso que se pode fazer dela é um exagero. Não podemos responsabilizar a invenção da prensa de tipos móveis pela Revolução Francesa ou a invenção do rádio pela ascensão do nazismo. Portanto, não me parece correto crucificar os telejornalistas só porque seu trabalho pode ser desvirtuado para finalidades espúrias. Além disto, as ciências sociais também já foram usadas para produzir e justificar genocídios. Isto ocorreu durante a Guerra do Vietnan segundo Noam Chomsky (O poder americano e os novos mandarins, Record, 2006). Nem por isto a sociologia ou os sociólogos foram submetidos ao linchamento público.

Ao retornar ao assunto principal, Bourdieu nos dá um panorama bastante interessante sobre a circulação circular da informação. “Para os jornalistas, a leitura dos jornais é uma atividade indispensável e o clipping um instrumento de trabalho: para saber o que os outros disseram. Esse é um dos encanemos pelos quais se gera a homogeneidade dos produtos propostos.” Segundo o autor nas “...equipes de redação, passa-se uma parte considerável do tempo falando de outros jornais e, em particular, do que ‘eles fizeram e que nós não fizemos’ (‘deixamos escapar isso!’) e que deveriam ter feito - sem discussão - porque eles fizeram.” Esta atitude faria com que os jornalistas fiquem submetidos à um verdadeiro “...fechamento mental.”

Um exemplo trágico dos males que podem ser causados pela circulação circular da informação ocorreu no Brasil. Estimulando-se uns aos outros os jornalistas paulistas “condenaram por suspeita” os donos de uma escola. No auge da cobertura do incidente, quando o caso ganhou a televisão, a imprensa tratava os suspeitos como criminosos. A revolta da população foi grande e a escola deles acabou destruída. Depois que o furacão acalmou ficou demonstrada a inocência dos envolvidos. Mas o estrago produzido nas vidas dos mesmos já tinha ocorrido.

Outro problema levantado pelo autor é a preocupação com o índice de audiência pois “...até nos espaços mais autônomos do jornalismo, salvo talvez Le canard Enchaîné, Le Monde Diplomatique e algumas pequenas revistas de vanguarda dirigidas por pessoas generosas e ‘irresponsáveis’, o índice de audiência está atualmente em todas as cabeças.” Ninguém tem dúvidas de que o índice de audiência estava nas cabeças dos jornalistas paulistas quando arruinaram involuntariamente as vidas dos donos daquela escola infantil.

Para Bourdieu a submissão à limitação objetiva imposta pela audiência fez com que o mercado passasse a ser “... reconhecido como instância legítima de legitimação...” colocando em risco a qualidade do jornalismo. Apesar a título de curiosidade vale a pena lembrar que o intenso debate “negócios x notícias” já ganhou até a tela grande (The Insider).

Bourdieu enfatiza que “...o pensamento é, por definição subversivo: deve começar por desmontar as ‘idéias feitas’ e deve em seguida demonstrar.” Existe um “...elo entre o pensamento e o tempo. E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade.” Como se submete à lógica do mercado a televisão acaba sendo inimiga do pensamento. Por isto a TV constitui-se no espaço privilegiado dos chamados fast-thinkers (pensadores rápidos), que difundem “idéias feitas” como se estivessem avaliando profundamente os temas que lhes são propostos. Sendo o oposto do pensamento as “idéias feitas” não propiciam nem mesmo a comunicação.

Um pouco mais adiante, o autor assevera que o “... mundo do jornalismo é um microcosmo que tem leis próprias e que é definido por sua posição no mundo global e pelas atrações e repulsões que sofre dos outros microcosmos. Dizer que ele é autônomo, que tem sua própria lei, significa dizer que o que nele se passa não pode ser compreendido de maneira direta a partir de fatores externos.” Os jornalistas, segundo Bourdieu, podem ser muito perigosos “...nem sempre sendo muito cultos, surpreendem-se com coisas não muito surpreendentes e não se surpreendem com coisas espantosas.”

Através da TV estes mesmos jornalistas perigosos e não muito cultos “...tornaram-se pequenos diretores de consciência que se fazem, sem ter de forçar muito, os porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa, que dizem ‘o que se deve pensar’ sobre o que chamam de ‘os problemas da sociedade’, as agressões nos subúrbios ou a violência na escola.” A contradição entre esta passagem e outra já mencionada é evidente.

Bourdieu disse que a televisão prioriza os pensadores rápidos e suas “idéias feitas”, as quais não comunicam nada ou quase nada. Sendo assim os “diretores de consciência” não podem dizer “o que se deve pensar”, porque pensar implica na destruição das “idéias feitas” que divulgam. Seria mais lógico, portanto, o autor afirmar que o público é desviado da atividade de pensar, levado a aceitar as “idéias feitas” como se elas fossem algo que não são. Mas há ainda outro problema. Da maneira como foi formulada, a hipótese sugere que as pessoas que assistem TV são crédulas e incapazes de submeter os programas que assistem a alguma crítica.

Para a empresa jornalística, a notícia é mercadoria. De sua venda depende a existência e a lucratividade do negócio. Contudo, o cálculo do prejuízo resultante da divulgação também faz parte do negócio porque pode inviabilizá-lo (como fica claro no filme The Insider). O público, entretanto, tem direito de saber tudo que precisa para bem orientar sua vida. Resulta daí que a notícia não é apenas uma mercadoria mas um bem cultural útil e necessário.

Bourdieu nos lembra que “...as produções mais elevadas da humanidade, a matemática, a poesia, a literatura, a filosofia, todas essas coisas foram produzidas contra o equivalente do índice de audiência, contra a lógica do mercado.” O livro sugere que é necessário encontrar um ponto de equilíbrio entre a saúde financeira das empresas jornalísticas, a liberdade dos profissionais da informação e a satisfação do interesse público. Quando há conflito entre os negócios e as notícias deve prevalecer o interesse público. As pressões do mercado são sempre transitórias. Já a perda de credibilidade decorrente da capitulação automática diante dos índices de audiência pode ser duradoura.

Sob o aspecto político, entretanto, a crítica de Boudieu se mostra desatualizada. Ele afirma que não “...há discurso (análise cientifica, manifesto político etc.) nem ação (manifestação, greve, etc.) que, para ter acesso ao debate público, não deva submeter-se a essa prova da seleção jornalística, isto é, a essa formidável censura que os jornalistas exercem, sem sequer saber disso, ao reter apenas o que é capaz de lhes interessar, de ‘prender sua atenção’, isto é, de entrar em sua grade, e ao relegar à insignificância ou à indiferença expressões simbólicas que mereceriam atingir o conjunto dos cidadãos.”

Com o advento da Internet qualquer cidadão capaz de produzir um texto (escrito, sonoro ou imagético) pode divulgá-lo na rede por e-mail ou através de um website. Além de divulgar sua mensagem na rede, o usuário ou grupo interessado pode, ainda, entrar em contato com inúmeros veículos de informação para tentar fisgar um jornalista pela curiosidade ou concorrência. O monopólio de difusão de informações foi quebrado pela Internet, a atividade do jornalista foi substancialmente modificada. A interatividade deu aos leitores o poder de ajudar a definir a pauta de pequenas, médias e grandes publicações.

Recentemente circulou na Internet uma crônica atribuída a Luis Fernando Veríssimo. Ao tomar conhecimento da mesma o escritor afirmou publicamente que não era o autor do texto. A negação da autoria virou notícia e levou à descoberta da verdadeira autora da crônica e o mérito literário dela acabou sendo reconhecido. Nada disso teria ocorrido sem a Internet. Este exemplo ajuda-nos a compreender quanto a critica de Pierre Bourdieu aos veículos de comunicação unidirecionais foi ultrapassada pelo desenvolvimento tecnológico.

De qualquer maneira existem boas razões para adquirir e ler o livro. Até que a Internet se torne uma realidade para as camadas mais pobres da população, o estudo da TV unidirecional ainda será importante (pois a mesma continuará a reinar absoluta sobre os outros meios de comunicação). Além dito, o livro ajuda o público a compreender as limitações e idiossincrasias da TV no exato momento em que a mesma começa a sofrer a pressão da Internet. A critica dos meios de comunicação a ser construída pode apoiar-se solidamente no degrau construído pelo sociólogo francês.


Fábio de Oliveira Ribeiro

>>A CRIAÇÃO
 
>>Literatura
>>Textos Literários
>>Colaboradores
>>Mitologia
>>Cinema
>>Cibercultura
>>Humor
>>Outros Escritos
>>Fotos
>>Contato
>>Web Master
 
 
 
 
 
LITERATURA TEXTOS LITERARIOS MITOLOGIA CINEMA CIBERCULTURA OUTROS ESCRITOS