A
SOFISTICAÇÃO DA CENSURA NO BRASIL
Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa
o observador em erro. O erro na verdade não é tem um
certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que,
mesmo do acerto de seu ponto de vista é possível que
a razão ética nem sempre esteja com ele." (Paulo
Freire, Pedagogia da Autonomia)
Citei Paulo Freire por duas razões. A primeira porque suas
palavras são flechas que podem ser lançadas contra a
intolerância de direita. A segunda é porque estas setas
também podem ser usadas contra o autoritarismo de esquerda.
O processo de construção conceitual do Brasil tem sido
fruto de mentes doentiamente intolerantes e autoritárias. Isto
é um fruto direto da história colonial. Não há
uma história da invasão sob o ponto de vista indígena.
O colonizador dizimou os índios considerados hostis e nunca
permitiu aos amistosos colocar no papel sua maneira de encarar as
relações com os colonos. Pela mesma razão inexiste
história da escravidão sob o ponto de vista dos negros.
Apesar de aprenderem a língua portuguesa os escravos não
tinham direito de aprender a escrever e os que aprenderam só
conseguiram deixar registros favoráveis aos senhores de engenho.
Traços indeléveis desta característica perduram
na cultura brasileira. Ainda existem grupos que se acreditam com o
sagrado direito de serem os únicos a definir o que é
bom e o que não é adequado ao Brasil. Censurar a produção
intelectual dos considerados incômodos parece ser a única
missão destes neo-senhores-de-engenho. Muito embora a liberdade
de expressão seja conferida a todos os brasileiros pela CF88,
Declaração Universal dos Direitos do Homem e Convenção
Interamericana de Direitos Humanos, eles procedem como se algumas
pessoas fossem indignas de divulgar sua produção intelectual.
Quando vivíamos na ditadura o problema levantado pelo autor
do texto "Por onde você tem clicado, hein?" (http://www.youtube.com/watchv=QfrxH9sGlfs&mode=related&search=)
não existia. Os censores ditavam a política oficial
e reprimiam duramente qualquer divergência. Via de regra os
jornalões seguiam a cartilha estatal. Aliás, é
notório o fato de que alguns donos de jornais, rádios
e TVs gostavam de adular os milicos e até ganhavam bem para
lustrar suas botas.
Mas os tempos mudaram. A democracia se tornou uma realidade e a Internet
colocou a liberdade de expressão ao alcance de todos. Em razão
disto a censura se refinou.
Mesmo proibida a maldita censura ainda existe. Mas passou a ser exercida
de maneiras indiretas. Uma delas é a baseada na "autoridade
do discurso": a credibilidade de alguns websites seria maior
do que a de outros. A outra é o "discurso da autoridade":
a utilização do Poder Judiciário como uma ferramenta
de coerção ideológica se tornou uma triste realidade
(a proibição judicial da divulgação da
biografia do Roberto Carlos é exemplo claro disto).
Do ponto de vista ético o auto-elogio não é uma
virtude, mas um erro (não usei o vocábulo "defeito"
ou "vício" porque não quero me igualar aos
infocensores). Sendo assim, quem diz que suas informações
são melhores que as dos outros websites não merece a
credibilidade que se auto-aribuiu.
Note-se, ademais, não compete a quem divulga informações
julgar a qualidade das mesmas. Cada internauta tem o direito de julgar
por si mesmo o que e como consumir.
A liberdade de cada internauta de acessar as informações
que julgar adequadas é indiscutível. Não precisamos
de interlocutores, nem de censores. Gostem ou não os autores
do texto comentado, todos somos seres humanos dotados de racionalidade
e liberdade. Podemos escolher nossas próprias ideologias e
não precisamos habitar os currais conceituais que algumas pessoas
pretendem construir.
A utilização do Poder Judiciário para intimidar
os incômodos é vergonhosa. No meu caso só tem
aumentado minha disposição de continuar a escrever e
difundir minha produção intelectual. Já fui vítima
de dois processos judiciais por causa de ser considerado incomodo:
http://br.geocities.com/revistacriacao2001/justica_israel.htm
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/12/341396.shtml
No dia 1882007 fui alvo de uma destas refinadas formas de infocensura.
Publiquei no Centro de Mídia Alternativa do Brasil um texto
que foi originalmente divulgado no Jornal de Debates (http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?cnt_id=15&art_id=10180).
Ao contrário do JD o CMI entendeu que meu texto é ofensivo
e escondeu mesmo de sua página principal. Mandei aos responsáveis
pelo website o e-mail que segue abaixo:
"Vocês esconderam meu seguinte artigo:
http://www.midiaindependente.org/eo/blue/2007/08/391033.shtml
A censura prévia
é proibida pela CF/88. Além disto, somente o Poder Judiciário
pode retirar matéria jornalistica de circulação.
Caso não
republiquem a matéria acima num prazo de 24 horas tomarei providências
enérgicas contra o CMI. Vocês não tem direito
de praticar a censura prévia ilegal.
Não aceito
com facilidade a censura, venha de onde vier. Estou brigando com a
comunidade judaica brasileira por causa de censura. Já briguei
até com o Judiciário paulista por causa da mesma. Não
tenham dúvidas de que vou brigar na Justiça com vocês
por causa do princípio da liberdade de expressão, que
vocês também estão obrigados a respeitar (gostem
ou não dos meus artigos, a publicação é
aberta e deve se manter assim).
Estou encaminhando
cópia da presente para minha caixa de mensagens como prova
do requerimento extrajudicial e pacífico de republicação
do artigo."
Se for necessário na semana que vem contratarei um advogado
para processar o CMI Brasil. O princípio da liberdade de expressão
e impossibilidade de censura deve ser respeitado por todos (inclusive
pelos que se dizem de esquerda).
Apesar de todos os contratempos aqui estou a escrever o que penso.
Pensar é um direito me conferido pela natureza. Publicar o
que penso é uma garantia me conferida pela legislação
nacional e internacional. Quem não gostar de minhas palavras
que me processo e me defenderei. Se me censurarem recorrerei ao Judiciário
para que respeitem meus direitos. Mas nunca tentei impedir ninguém
de divulgar o que quer que fosse na rede. Não faria isto, pela
simples razão que não pretendo me igualar àqueles
que gostam de praticar a famigerada censura.
Desde que foi
criado o Jornal de Debates tem sido um espaço aberto. Lá
todos podem se expor. Os textos de todos os debatedores recebem o
mesmo tratamento jornalístico. O público pode ler, opinar
e até mesmo replicar ou ignorar aquilo que considerar absurdo
ou abusivo.
A própria existência do JD é um tapa na cara do
CMI Brasil e dos iluminados que escreveram o louvor da infocensura
pela "autoridade do discurso". Mas não sei se eles
teriam coragem de vir aqui defender de peito aberto seu auto-elogio.
E se o fizerem cá estou para questionar sua credibilidade com
argumentos.
Fábio de Oliveira Ribeiro