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SOLDADO ANÔNIMO O ano cinematográfico começou bem. SOLDADO ANÔNIMO é um dos melhores filmes da última década. Tudo o que um adolescente precisa saber sobre a guerra é brutalmente jogado em sua cara. Enquanto estava em casa, o personagem central tinha uma namorada e fazia amor quando queria. Após vários meses no Oriente Médio sem fazer nada ele se masturba e pensa nela. A exemplo das companheiras e esposas de vários outros soldados, a amada do herói não consegue ficar sozinha e arruma outro. Um diálogo irônico demonstra como ele e seus colegas foram vítimas da promessa do exército de uma vida de ação e muito sexo. O desenrolar do filme confirmou minhas suspeitas de que os soldados americanos são onanistas armados, cornos infelizes que defendem causas que desconhecem. A metalinguagem ocupa um lugar importante no filme. Durante o treinamento a tropa assiste Apolcalyse Now e entra em delírio enquanto é exibida a ontológica cena em que os helicópteros atacam uma aldeia vietnamita. Após o fim da Guerra do Golfo o soldado reformado assiste pela TV algo que parece ser uma cena de FALCÃO NEGRO EM PERIGO, filme que já analisamos nesta revista. O primeiro filme citado explora o surrealismo da guerra iniciada por Kennedy, o segundo retrata realisticamente a guerra absurda de Bill Clinton. Enquanto narra o treinamento das tropas, SOLDADO ANÔNIMO é realista. Os soldados são brutalizados pelos oficiais e brutalizam-se uns aos outros para compensar a frustração. A partir do momento em que o herói e seus colegas entram em ação, o filme se torna surrealista. Eles acampam próximos aos poços petrolíferos em chamas, cavam abrigos na areia molhada pela chuva oleosa que cai do céu. Andam de um lado para outro em busca de ação mas só conseguem encontrar cadáveres. O único ataque que sofrem são dos aviões americanos. A cena na estrada da morte é tocante. Durante a verdadeira guerra do golfo a USAF bombardeou um comboio de veículos particulares e militares que se retiravam do Kuait eliminando centenas de milhares de iraquianos. Até hoje não sabemos exatamente o que ocorreu. Há quem não descarte a hipótese de perfídia americana. A retirada teria sido negociada entre os generais de Saddan e de Bush. Quando tiveram garantia de que poderiam abandonar o Kuait em segurança, as tropas iraquianas pegaram a estrada e foram covardemente despedaçadas e incineradas pela força aérea dos EUA. O filme endossa de maneira sutil esta tese na medida em que os personagens chegam e ultrapassam a “estrada da morte” sem enfrentar o inimigo. Alguns diálogos entre os soldados são bastante comprometedores. No país da liberdade os soldados sofrem a mais abjeta censura. É impossível o expectador perceber que não há diferença qualitativa entre o regime político americano e o iraquiano. Nesse sentido, o filme sabota abertamente as campanhas em curso. Pela abordagem que deram à Guerra do Golfo, percebe-se claramente que os produtores e roteiristas do filme não estão comprometidos com a escola estética nacional-socialista que ganhou força no cinema americano desde os atentados às Torres Gêmeas. Isto é excelente, pois demonstra que a sociedade americana ainda não está completamente doente. Já está mais do que na hora dos americanos perceberem que estão sendo sistematicamente enganados por republicanos, democratas e produtores culturais. O filme tem pelo menos duas cenas que merecem entrar para a história do cinema. A primeira é a do soldado se masturbando. A outra é a do protagonista completamente bêbado dançando somente com duas toquinhas, uma na cabeça e outra no pênis. Não tenho certeza, mas suspeito que a última cena foi inspirada no Geraldão e seu bimbolover. O filme é simplesmente imperdível. Fábio de Oliveira Ribeiro |