O SÓLIDO “BRASIL GLOBAL” DESMANCHA NO
AR
Há alguns dias publiquei no Jornal de Debates a resenha do
livro O DESAFIO A CULTURA, uma obra que sem dúvida alguma ajuda
a compreender o papel da Rede Globo no Brasil:
http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?cnt_id=15&art_id=12726
Retomo referida resenha da qual destaco o seguinte fragmento que me
parece bastante representativo:
"No primeiro capítulo da obra, não sem incorrer
num certo eurocentrismo, os autores procuram as origens da crise do
Ocidente. Segundo eles, boa parte dos problemas ocidentais podem ser
creditados aos conflitos entre a “cultura” e a “cultura
de massa ou etnológica”. A distinção entre
ambas é feita tendo em conta dois pares de opostos: quantidade
x qualidade, rápida obsolescência x permanência,
mitologia tóxica x humanismo crítico.
O próprio conceito de cultura, que tem sido construído
a séculos, sofre a pressão da modernização
das sociedades européias. Para o senso comum e parte da crítica
especializada não há ou não deveria haver distinção
entre “cultura” e “cultura etnológica”,
porque a hierarquia entre as obras de arte não pode ser feita
com base em critérios objetivos. Além disto, as massas
não têm acesso à cultura da elite, de maneira
que não seria justo depreciar a “cultura etnológica”.
Como acreditam que “...só há enriquecimento pessoal
na cultura de qualidade” os autores entendem que a distinção
não é só necessária como essencial. A
“cultura de massas ou etnológica” é tóxica
e produz a crise ocidental justamente porque não e capaz enriquecer
humanisticamente seus destinatários.
No fundo os autores sugerem a seguinte questão: o que vem primeiro
o LUCRO dos produtores da cultura etnológica ou as NECESSIDADES
HUMANISTICAS dos destinatários desta produção
cultural? "
Salvo raríssimas exceções, a Rede Globo é
uma das principais difusoras e produtoras de "cultura etnológica"
no Brasil. Isto ajuda a explicar como e porque aquela rede de televisão
sempre manteve uma relação quase umbilical com os donos
do poder.
Mesmo quando adota uma posição aparentemente crítica,
a Globo nunca produz ou reproduz produtos culturais que coloquem seriamente
em risco os fundamentos do Estado ou da governabilidade. Muito pelo
contrário. Banindo a "cultura" de sua programação,
a Globo legitima o jogo de cartas marcadas que situação
e oposição fazem enquanto disputam o controle do Estado.
Mais que isto, a TV Globo sempre procura alinhar-se aos personagens
que estão ou têm condições de ficar ou
chegar ao poder.
Na minha coleção de fotos tenho duas que exemplificam
bem a cultura política da Globo. Numa delas o Roberto Marinho
está todo sorridente e de mãos dadas com o João
Goulart. Na outra o mesmo Roberto Marinho sorridente cumprimenta o
General Castelo Branco logo após os militares terem dado as
costas e as contas ao Jango.
Durante décadas a Globo foi a principal responsável
pela reprodução de séries e filmes norte-americanos
no Brasil. A maioria destes filmes e séries, concebidos e produzidos
sob a pressão ideológica da Guerra Fria, tinham a finalidade
aberta ou dissimulada de reforçar o papel dos EUA como um exemplo
de liberdade, democracia, desenvolvimento, respeito aos direitos humanos,
etc.
Tenho 43 anos e nunca assisti um único filme ou programa soviético,
chinês ou cubano na rede Globo. O "Q" da Globo sempre
menosprezou a qualidade dos teleprogramas e filmes produzidos fora
da área de influência norte-americana. Mesmo que tivessem
qualidade ou fossem ideologicamente neutros, os programas soviéticos,
chineses e cubanos nunca tiveram espaço na Globo.
Os pedagogos costumam fazer uma distinção entre "doutrinação"
e "educação" levando em conta o fato do sistema
educacional (de certa maneira as TVs também integram o sistema
educacional do país) permitir ou não ao cidadão
escolher entre duas ou mais correntes de pensamento. A Globo nunca
nos deu a possibilidade de assistir e escolher entre os valores soviéticos,
chineses, cubanos e norte-americanos. No máximo podíamos
escolher entre os diversos valores norte-americanos veiculados através
dos vários filmes e programas produzidos nos EUA e transmitidos
pela Globo.
Fomos "doutrinados"? Sem dúvida! Mesmo quando produzia
seus programas a Globo sempre procurou tupinizar modismos norte-americanos.
Os gringos lançaram a moda das discotecas com "Os Embalos
de Sábado a Noite"? Nós tivemos ..."Dancing
Days". Notem que até o nome da telenovela global era em
inglês.
A rede Globo apoiou os militares, demonizou os "terroristas"
de esquerda e silenciou em relação à tortura.
Ajudou a enterrar o Regime Militar quando o mesmo começou a
dar mostras de esgotamento. Após a abertura lenta, gradual
e segura, a Globo elegeu Collor para depois lhe dar as costas e as
contas.
A empresa do "santo" Roberto Marinho criticou o Lula durante
décadas. Mas quando o "sapo barbudo" foi eleito Presidente
colocou-o em horário nobre para tecer loas sobre como Deus
devia gostar muito dele. Até hoje desconfio que a cortesia
global a Lula foi paga pelos contribuintes. Afinal, se levasse em
conta critérios unicamente econômicos o BNDS nunca teria
emprestado mais de um bilhão de dólares para a quase
falida Globosat.
Atualmente "doutrinação" global não
me incomoda tanto. Não posso mais ser doutrinado, nem assisto
tanto a TV Globo como quando era criança. Na atualidade minhas
preocupações são bem outras. O sólido
"Brasil Global" (esta versão latino-afro-tupinizada
dos EUA) que a rede de televisão carioca criou e difundiu como
sendo "o Brasil" está se desmanchando no ar em razão
da concorrência e da Internet.
Agora que existem outros Brasis possíveis e que os EUA começaram
a colocar as garras imperiais de fora sem que exista um inimigo ideológico
claro, localizável e demonizável, a Globo tende a murchar.
Todavia, antes de dormir no berço esplêndido da história,
a Globo merece levar muito chumbo grosso (verbal, é claro).
Fábio de Oliveira Ribeiro