REVISTA CRIAÇÃO
SPIDERMAN

Spiderman não é apenas uma adaptação do herói dos quadrinhos para a tela grande. É também uma crítica profunda a sociedade americana.

O tio do jovem estudante está desempregado. Depois de 35 anos de trabalho dedicado á empresa foi dispensado. Tem dificuldades para encontrar um novo emprego porque não entende nada de computadores. A critica a velocidade da modernização das relações de trabalho é evidente.

A informatização de toda sociedade criou situações terríveis no mercado de trabalho. Profissões deixaram de existir, outras sofreram profundas modificações. Nem todos operários americanos acompanharam o ritmo assustador de digitalização das relações de trabalho impostas pela nova onda econômica. A geração do pós-guerra, que cresceu num ambiente fabril diferente, só tem duas opções:- submeter-se aos programas de assistência social governamental ou sobreviver de bicos. O problema é que a ética do trabalho que alicerça a sociedade americana cria um conflito para algumas pessoas. Este parece ser o caso do tio do herói. Ele não tem mais qualificação necessária e insiste em procurar emprego.

O filme não resolve este conflito. Todavia, ao levanta-lo dá mais veracidade ao contexto e provoca reflexões importantes nos espectadores.

Outra questão importante refere-se à origem do vilão. Norman esta perto de perder um contrato importante com os militares. Ansioso, acaba cometendo um erro. Experimenta em si mesmo o resultado de uma pesquisa que ainda não findou. Acaba transformando-se num monstro.

As relações entre o governo e o complexo industrial militar nos EUA sempre despertaram suspeitas. Bilhões de dólares são despejados em pesquisas que nem sempre dão resultado ou cujos resultados são desastrosos (como a realizada por Norman). A preferência por algumas empresas e projetos de pesquisa em detrimento de outras deixa antever a existência de corrupção. As últimas palavras do general encarregado de observar o exoesqueleto são reveladoras. Ele detesta Nornan. Só não ficamos sabendo o por que.

O cinéfilo atento deve ter percebido que o exoesqueleto que está sendo testado quando o Duende Verde ataca é um equipamento desengonçado. O planador utilizado pelo vilão é muito mais versátil. O piloto que apresenta o produto ao general não tem nenhuma chance de defender-se. É um alvo imóvel diante de um atacante que tem uma mobilidade invejável. A intenção do filme pode ter sido questionar alguns programas militares americanos em andamento, mas como estamos distantes dos EUA não temos condições de apontar quais.

Aliás, não podemos deixar de perceber uma analogia entre Al Qaeda/Duende Verde e USArmy/exoesqueleto. O grupo terrorista tem sido eficiente e arrojado o bastante para burlar o sistema de segurança americano. O vilão ataca à luz do dia impunemente. O exército americano é, sem dúvida alguma, poderoso e bem equipado, mas ainda não localizou Bin Laden. O exoesqueleto é tão ineficiente quanto o USArmy.

O filme estava quase terminando em 11/09/2001. Após o atentado foi modificado. Algumas seqüências foram cortadas, outras adicionadas ao original. A discussão sobre a estratégia de defesa do governo Bush está sendo intenso nos EUA e parece ter se refletido na película.

Spiderman não é apenas mais um filme de ação. É "o" filme de ação do início do século XXI. Se você ainda não assistiu, assista. Se já assistiu, assista de novo.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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