REVISTA CRIAÇÃO

O SUSPEITO

Recentemente entrou em cartaz o filme O SUSPEITO. Trata-se de uma belíssima dramatização da prática adotada pela CIA após o 11/09 de raptar suspeitos de serem terroristas e transportá-los em jatinhos para serem torturados em cárceres secretos ao redor do planeta.


A princípio a história parece banal. Um garoto egípcio pobre, que foi recrutado por um grupo islâmico extremista porque seu irmão for torturado e morto pela Polícia. Ele namora a filha do personagem que pretende matar. O tal chefe de Polícia foi encarregado de torturar um suspeito para a CIA.


O suspeito, que é um outro egípcio que reside América e casou-se com uma americana, acabou sendo raptado num aeroporto ao chegar aos EUA vindo da África do Sul. Enviado para o Egito o pobre diabo come o pão que o diabo amassou porque teria ligações com os terroristas que tentaram matar o chefe de Polícia local. No atentado havia morrido o agente da CIA e o governo norte-americano quer achar os culpados.


Após algumas seções de tortura, o suspeito confessa que seus crimes e fornece os nomes de seus comparsas. As informações obtidas sob tortura se revelam inúteis e, convicto de que o suspeito é inocente, o agente da CIA que substituiu o que havia morrido liberta o suspeito.


Enquanto as seções de torturas ocorrem no Egito a mando do governo norte-americano, nos EUA a mulher responsável pela prisão do suspeito nega a prática de tortura e tenta se esquivar à responsabilidade de ter aprisionado um inocente. A esposa do suspeito tenta chegar até a mandante da tortura através de um Senador. Não demora muito para o político tirar o seu da reta para não comprometer sua imagem. Após o 11/09 ninguém quer ser chamado de amante do Bin Laden pela mídia.


O filme termina com o tal suspeito chegando à sua casa sob intensa cobertura jornalística. O chefe de Polícia egípcio descobre que sua filha havia morrido no atentado que investigava. Ela tentara impedir seu namorado de detonar a bomba que trazia sob as roupas. Antes de consumar o martírio, o rapaz é assassinado friamente pelos demais terroristas quando hesita em cumprir sua missão. A explosão ocorre porque ele solta o dispositivo que impede o acionamento da bomba.


As histórias (do terrorista, do suspeito, da esposa dele e da mandante da tortura) são apresentadas simultaneamente. Os cortes ágeis dão a impressão que todas as ações são simultâneas. Só no final ficamos sabendo que o suspeito foi preso após a morte do terrorista. Portanto, a filha do chefe de Polícia já estava morta no exato momento em que ele tortura um inocente. Além desta verdadeira tragédia (que tem elementos da Antigona e de Romeu e Julieta) há uma outra bem mais importante. A verdadeira tragédia que dá força e brilho ao filme seria aquela à que toda sociedade americana está sendo submetida.


Sob o manto da "Guerra ao Terror" o governo norte-americano adotou uma prática medieval, desumana e ineficiente de obter informações. Ao mesmo tempo em que pratica a tortura e a nega, a Casa Branca ignora a Constituição dos EUA e a legislação internacional à que aquele país aderiu (como a Convenção de Genebra e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, só para citar as duas mais relevantes que proíbem a tortura) rebaixando-se aos padrões morais dos terroristas.


A caça às bruxas realizada pela mídia dificulta qualquer tipo de reação às absurdas e ilegais práticas governamentais. Ninguém pode ou quer se arriscar a defender os inocentes submetidos à repugnante prática da tortura a democracia norte-americana. Em razão disto a democracia dos EUA também estaria agonizando sob intensa tortura.


Sob Bush II os norte-americanos já vivem num império brutal e ainda não se deram conta deste fato. A proposta do filme é exatamente romper a barreira do silêncio que tem fabricado o consenso em torno da tortura de suspeitos. Vale a pena conferir, mas sem esquecer que neste caso a realidade cotidiana é bem pior do que a representada nas telas dos cinemas.


Por fim é preciso frisar que há uma substancial diferença entre a forma como os americanos vêem os EUA e como aquele país é visto pelos povos que já saborearam o gosto amargo das bombas caindo sobre suas cabeças. Para muitos norte-americanos, dentre os quais alguns dos que escreveram, produziram e trabalharam no filme O SUSPEITO, seu país é uma democracia que se desviou de seu verdadeiro rumo e deve abandonar a tortura. Já as vítimas das aventuras militares dos EUA, aqueles que já saborearam o gosto amargo das bombas americanas caindo sobre as cabeças de seus parentes, tem boas razões para considerar que a democracia norte-americana tem sido e continuará sendo sinônimo de imperialismo brutal e militarizado.


Caso tenha ficado irritado porque revelei o enredo e o final do filme lembre-se que há diferença entre “assistir” e “apreciar” uma obra de arte. Ao “assistir” um filme podemos nos deliciar com as surpresas que o mesmo proporciona. Mas para “apreciar” uma obra de arte é preciso vê-la e revê-la várias vezes. Só assim percebem-se as nuances que não foram captadas enquanto ficamos fascinados com as surpresas que a mesma proporcionou à primeira vista.


Quando escrevo sobre um filme pretendo dar ao expectador a oportunidade de “apreciar” melhor as nuances do mesmo. Para que isto ocorra é essencial tratar do enredo e seu final.


Por outro lado, toda obra de arte tem um sentido político. É impossível tratar deste sem abordar as partes que constituem a obra. Além disto, não me compete fazer “propaganda” do filme analisado. Não sou publicitário, portanto, não tenho obrigação de preservar algum sigilo sobre o conteúdo do filme para vender o produto.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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