REVISTA CRIAÇÃO

“TEORIA DO CERCO”

A "teoria do cerco" é uma meia verdade anunciada sempre com o propósito de preservar o orçamento militar ou proporcionar o aumento de despesas militares. Para ser mais exato para proporcionar a manutenção ou aumento das despesas com vencimentos e aposentadorias dos oficias das três armas.

Conheço razoavelmente os dois livros de Moniz Bandeira dedicados às relações bilaterais Brasil/EUA (Presença dos Estados Unidos no Brasil, civilização brasileira,1973; e As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos, civilização brasileira, 2004), as quais resenhei e utilizei para compor vários textos sobre disputas entre os dois países. Sua hipótese de conflito armado entre os dois paises não pode ser totalmente descartada. Não deve, entretanto, determinar todas as políticas internas e externas do Brasil.

O diplomata Moniz Bandeira, que realmente endossa a “teoria do cerco”, desconsidera aspectos importantes que amortecem os conflitos entre ambos. Dentre os quais podemos destacar os seguintes

A diplomacia americana é extremamente pragmática. Enfatiza menos a ideologia do que a preservação dos interesses econômicos e comerciais americanos. Os interesses dos EUA e do Brasil são mais complementares do que concorrentes, de maneira que uma guerra entre os dois paises é uma hipótese pouco provável, pelo menos nas próximas décadas. As empresas e empresários americanos que operam e negociam no Brasil estão razoavelmente satisfeitos e têm influência suficiente no Congresso Americano para desarmar qualquer intenção belicosa.

Os americanos sabem mais do que ninguém o potencial da guerra externa para desarticular toda estrutura econômica e social de um país. O exemplo do Iraque está a demonstrar que uma intervenção, mesmo que bem sucedida do ponto de vista militar pode desencadear uma guerra civil e se tornar um pesadelo político para o vencedor.
As estruturas sociais e políticas do Brasil são relativamente estáveis e favorecem imensamente a satisfação dos interesses americanos no país. Assim, não parece razoável acreditar que os americanos arriscariam alterar o equilíbrio de forças dentro Brasil em razão de uma guerra externa colocando em xeque a sobrevivência das próprias empresas e interesses americanos.

Ao contrário dos seus visinhos mais próximos, o potencial tecnológico e militar brasileiro é muito significativo. Dominamos todo o ciclo do urânio e estamos em condições de rapidamente construir armas nucleares. O parque industrial militar brasileiro é dinâmico e poderia rapidamente se transformar num transtorno regional e hemisférico caso o país concentrasse esforços na defesa de uma ameaça real ou de uma agressão concreta. Por mais imperialistas que tenham se mostrado ao longo do último século, os ocupantes da Casa Branca souberam contornar as tensões com o Brasil para evitar o surgimento de outra potência no hemisfério com pretensões de influência global.

Durante a Guerra Fria os americanos concentraram seus esforços em desenvolver seu potencial tecnológico e militar para fazer frente à URSS. Com a nova ordem mundial decorrente do esfacelamento soviético, a Casa Branca tem feito uso da máquina americana onde seus interesses são evidentes: Panamá, para preservar o controle do Canal; Kwait para garantir a fragmentação da produção petrolífera no Oriente Médio; Afeganistão, com intuito de construir o oleoduto que escoará a produção de petróleo e gás da Rússia; novamente Iraque para dar o golpe de misericórdia no combalido regime de Saddan Hussein e controlar militarmente as reservas petrolíferas daquele país, reduzindo assim o poder dos outros produtores regionais e mundiais de petróleo.

Em razão do exposto, podemos considerar a “teoria do cerco” como uma hipótese razoável. Mas esta hipótese não deve de maneira alguma determinar todas as nossas políticas internas e externas. Apesar das disputas comerciais e das tensões diplomáticas entre os dois paises o cenário de guerra entre o Brasil e os EUA ainda não merece muito crédito.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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