REVISTA CRIAÇÃO
 

A TRAGÉDIA, A INTERNET E A FILOSOFIA DO MARTELO

O US do IG fez uma matéria comparando as fotos do atirador norte-americano de origem asiática e o filme Old Boy http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2007/04/19/filme
_coreano_teria_inspirado_autor_de_massacre_nos_eua_756799.html#
comentarios . As semelhanças apontadas são interessantes. Mas a pobreza da matéria é evidente. Não dá para culpar só o filme Old Boy pelo que ocorreu.

Num episódio de ANJOS DA LEI o então queridinho da América (Johnny Deep) também empunha um MARTELO ameaçadoramente. Centenas de filmes americanos trazem cenas semelhantes a do coreano de Old Boy com a pistola na cabeça (em EU, ROBO, por exemplo, Will Smith faz isto logo no começo do filme ao se levantar). Nenhuma das produções americanas foi citada na matéria.

A propósito, o MARTELO usado no filme Old Boy e pelo atirador pode ser uma referência clara à FILOSOFIA DO MARTELO de Nietzsche (http://www.ucm.es/info/especulo/numero19/martelo.html), que pretende ser um antídoto iconoclasta à moralidade cristã. Mas parece que os jornalistas do IG não perceberam a simbologia do MARTELO que existe no filme e na foto do “serial killer”.

Nem só de violência é feito o roteiro de Old Boy. O cinéfilo atento é capaz de perceber que o filme procura desmantelar dois ícones: a proibição do amor entre irmãos e o tabu do sexo entre pai e filha. O vilão ama sua irmã e o amor proibido de ambos se torna público por causa da língua comprida do herói. Confrontado com a possibilidade de rejeição pública, o vilão deixa a irmã morrer sabendo que ela não sente culpa. Em razão disto, o vilão aprisiona o herói e cria condições para que ele se apaixone pela filha sem saber. O vilão planeja contar a ambos que são pai e filha destruindo a relação de ambos, mas desiste porque o herói corta a língua. A mutilação que o herói realiza em si mesmo tem três finalidades: penitencia pelo erro que cometeu divulgando o amor do vilão pela irmã; preservar o amor da sua filha evitando que o vilão divulgue a verdade dos fatos; impedir que ele mesmo divulgue a terceiros a verdadeira natureza de sua relação com a amada.

O “serial killer” fotografou-se com um MARTELO. Também gravou declarações em que critica seus colegas de faculdade, a quem chama de impostores e garotos ricos. Apesar de rudimentar, o caráter iconoclasta das declarações do atirador é evidente. Em sua concepção a “riqueza fácil” e o “falso conhecimento” são ícones que merecem ser destruídos. Não satisfeito em meditar sobre a destruição dos mesmos do ponto de vista intelectual, o “serial killer” resolveu que os próprios estudantes deveriam ser eliminados. Realizou no corpo das vítimas o que Nietzsche se esforçou para fazer à moralidade cristã? Apesar de sua mentalidade deturpada, a influência nietzscheniana de suas ações me parece evidente, pois Nietzsche tinha um desprezo evidente pelo humanismo:

“No capítulo Passatempos intelectuais, usando uma linguagem vigorosa e rude, Nietzsche procura ridicularizar todos os que o antecederam, de Sêneca a Zola. O único filósofo que elogia é Schopenhauer, de quem certamente emprestou a linguagem que usa para denegrir seus desafetos. O elogio que faz da “diferença” em oposição à “igualdade de direito”, da morte em face da medicina que prolonga o sofrimento, da guerra como essência da liberdade e da rígida estrutura social russa no século XIX demonstra todo o desprezo que Nietzsche devotava ao humanismo. Seu ódio desmedido aos socialistas, anarquistas e trabalhadores sugere que a despeito da crítica destrutiva e ferina que faz de Platão, o filósofo alemão recriou o platonismo. Já se disse que na República de Platão somente havia lugar para seu criador. Na sociedade aristocrática nietzschiana somente Nietzsche suportaria viver. Afinal, a intolerância política e filosófica do pensador alemão é tamanha, que, se ele pudesse, certamente queimaria todos os livros que produziram a degeneração que o circundava. É impossível deixar de perguntar como toda aquela decadência cultural não foi capaz de contaminá-lo.”
(http://portugal.indymedia.org/ler.php?numero=111895&cidade=1).

O jornalismo visa divulgar os fatos. Mas nem sempre todos os fatos de uma notícia estão contidos numa matéria. A filosofia e a iconografia podem ajudar o jornalista a pesquisar fatos por traz dos fatos, proporcionando ao leitor ângulos mais abertos que os proporcionados pelos relatos rápidos e despretensiosos. Se não fizer isto, um internauta atento certamente puxará a orelha do jornal. O jornalismo à moda antiga, unidirecional, deixou de existir, felizmente.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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