TRANSFORMERS
Um garoto ganha o primeiro carro, mas na verdade não é ele que o escolhe. Ele é escolhido pelo automóvel. Não demora para o carro revelar sua verdadeira natureza: ele é o protetor do garoto. Após uma luta de vida e morte com um oponente, o protetor chama seus amigos siderais. Liderados por “Optimus Prime” um pelotão de alienígenas robóticos chega a terra para recuperar um objeto que se cair em mãos erradas colocará em risco a existência da espécie humana. Os Decepticons já estão na terra e também querem o objeto. Atacam uma base americana no Catar para invadir a rede de computadores do Pentágono a fim de anular a vantagens militares americanas. Um robô espião chega a invadir a rede de militar de computadores do avião presidencial americano. O objeto da disputa é um cubo de energia, que encontra-se escondido numa usina hidrelétrica americana. Lá também está o líder congelado dos Decepticons, que caiu no Ártico e em razão do congelamento está inoperante. Após uma série de perseguições, os dois exércitos se enfrentam nas ruas de New York. Com a ajuda dos homens os Decepticons são vencidos, a humanidade salva e o herói fica com a garota (e com o carro robô, é claro). A estrutura da história é absolutamente simples e pode ser compreendida à luz das definições de Joseph Campbell (O Herói de Mil Faces, Cultrix, 2007, São Paulo). O chamado para aventura ocorre quando o rapaz vai ao encontro do carro que o escolhe. Ele não sabe, mas há uma ligação mítica entre ambos (o antepassado do garoto descobriu o primeiro Decepticon). Quando é perseguido pelo carro após descobrir sua verdadeira natureza o garoto recusa a aventura, mas acaba se rendendo à necessidade porque se vê frente a frente com um oponente. Ao assistir seu protetor vencer o inimigo e ser obrigado a confrontar pessoalmente o robô espião que quer algo que está com ele - e que indicará o local do cubo - o herói passa o primeiro limiar. Não há mais volta, queira ou não ele já é parte da trama. Pouco tempo depois o garoto é obrigado a ficar nos ombros de “Optimus Prime”. Entre os romanos Júpiter também era chamado “Júpiter Optimus“. Júpiter era o primeiro (prime) entre os deuses, sendo assim “Júpiter Optimos” é igual a “Optimus Prime”. Portanto, ao ser acolhido nos ombros do líder dos Autobôts, o herói compartilha sua natureza quase divina. Quando retorna à companhia dos homens ele está transformado, pronto para realizar toda sua tarefa. Várias serão as provas que o garoto terá que enfrentar. Dentre elas se destaca a de proteger o cubo de energia enquanto os Decepticons e os Autobôts travam sua guerra. O herói não só consegue cumprir sua missão como salva a vida de “Optimus Prime”, revelando assim uma natureza quase divina. O garoto e o líder dos Autobôts estão em sintonia perfeita quando Megratron é vencido, ou seja, na apoteose da trama. Duas fases do esquema geral do mito retratado por Joseph Campbell do herói foram desprezadas em TRANSFORMERS. O roteiro não contempla o encontro com a deusa e a mulher como tentação. A benção última, entretanto, está presente. Os transformers ficam na terra para proteger a humanidade em geral e o herói em particular. É interessante notar como o filme coloca em cheque a eficiência do serviço secreto e a própria natureza do Estado americano. Um robô acessa a rede do Pentágono do avião presidencial e rouba informações secretas. Quando o avião pousa, por mais indiscreto que seja o robô espião não é visto. Megratron, o líder congelado dos Decepticons (robôs que querem o cubo para destruir a humanidade) está em poder do governo americano. Megratrom representa o mal absoluto. Na escatologia medieval, Lúcifer era colocado no ponto mais baixo do inferno, onde haveria um mar de gelo. Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, Inferno, Canto XXXIV, usou esta imagem: “O imperador do reino doloroso erguia o peito para fora da geleira.” Em TRANSFORMERS é o governo americano que esconde o mal absoluto. E em razão de sua incompetência absoluta permite que Megratron (Lúcifer) seja libertado. Não é o governo que vence o inimigo. Megraton e seus comandados são derrotados pelos Autobôts, pelo herói e por uns poucos militares que o auxiliam na batalha final. A única crítica severa que se pode fazer ao filme é a excessiva valorização do militarismo. Os Autobôts preservam uma disciplina e hierarquia rigidamente militar. Não são poucas as vezes em que “Optimus Prime” enfatiza a necessidade de honra, sacrifício individual e usa a violência para atingir seus propósitos. Entre Decepticons e Autobôts não há diplomacia, só guerra. Uma guerra inexorável entre o mal absoluto e o bem absoluto (duas coisas que não existem no mundo real). As tomadas com porta-aviões, caças, helicópteros, tanques e carros de combate incentivam os telespectadores a glorificar maquinas que realmente existe. Máquinas que no final das contas são desprovidas de qualquer conteúdo humanitário já que concebidas apenas para a carnificina metódica e proposital de seres humanos. O filme também induz o telespectador a acreditar que os gastos militares são sempre justificáveis na medida em que os inimigos podem estar em qualquer lugar (inclusive no espaço). Se não gostou de minha avaliação de TRANSFORMERS, faça a sua. Mas pelo menos assista ao filme com alguma atenção. Fábio de Oliveira Ribeiro |