REVISTA CRIAÇÃO

O ÚLTIMO SAMURAI

Por mais que Tom Cruise tenha se esforçado, a melhor atuação no filme O ÚLTIMO SAMURAI ficou por conta do ator que interpreta o líder da rebelião japonesa. Será uma injustiça o japonês não ganhar o Oscar de melhor ator. O esforçado americano merece, sem dúvida alguma, a estatueta de melhor coadjuvante. Mas se irá ganhá-la ou não é uma questão de marketing. E poucos são os inimigos de Cruise em condições de desafiar sua fortuna e poder.

A primeira coisa que chama a atenção é a capacidade que os roteiristas tiveram de mutilar a historia medieval japonesa, tão bem retratada por Akira Kurosawa no filme RAN. Entre uma batalha e outra para preservar ou aumentar os territórios de seu Shogun, os samurais de verdade se dedicavam à perfeição porque não trabalhavam. Os senhores feudais e seus guerreiros exigiam pesados tributos dos camponeses, reprimiam de maneira exemplar os descontentes e tratavam suas esposas como objetos. Apesar disto, na tela grande os samurais vivem em perfeita harmonia com os camponeses, que transitam de um lado para o outro do cenário sempre satisfeitos.

O personagem representado por Tom Cruise é um capitão atormentado pela má consciência. Arrependido por ter participado de um ataque a mulheres e crianças, abandona o exército e acaba sendo convidado para ir ao Japão fazer o que sabe. Matar gente inocente desarmada ou mal armada. Lá ele acaba sendo preso e, seduzido pela cultura militar oriental, recupera a honra lutando como se fosse um samurai contra o terrível exercito imperial japonês americanizado.

A estrutura profunda do filme é interessante. O ÚLTIMO SAMURAI foi construído sobre a aposição entre “honra militar x vitória a qualquer custo”. É evidente que os roteiristas procuraram valorizar a primeira em detrimento da segunda, identificada à cultura militar americana. Assim, apesar de serem rebeldes, os samurais são retratados como mocinhos. Os vilões são um conselheiro do imperador e o americano que liderou o ataque aos índios desarmados e foi contratado para modernizar o exército japonês.

Mesmo sendo derrotados, os samurais levam a melhor. No final o samurai americano mata o ex-colega de trabalho e o imperador reconhece o valor do código de honra militar dos rebeldes. O conselheiro que apostou na modernização do exército para tirar vantagem pessoal e se impor aos revoltosos é humilhado na frente de todos.

O capitão/samurai arrependido que recupera sua honra no Japão pertencia a 7ª Cavalaria. A mesma que, comandada por Custer, realizou tantos e tamanhos genocídios que acabou sendo trucidada até o último homem por Touro Sentado e seus peles vermelhas. Assim, O ÚLTIMO SAMURAI não valoriza apenas a honra militar japonesa. Valoriza positivamente também o militar americano honrado.

A industrial americana nunca é sutil. De uma maneira ou de outra, ela sempre justifica as ações militares americanas. Às vezes os filmes salvam a honra das instituições militares. Outras procuram ressaltar que, se o US Army tem genocidas, existem militares americanos honrados. Mesmo que não possam evitar a matança desenfreada de iraquianos e afegãos, eles sempre poderão servir de exemplo porque representam o verdadeiro modo americano de fazer a guerra. O problema é que enquanto a vida não imitar a arte e mesmo que a imite, várias outras sétimas cavalarias ao redor do planeta podem continuar fazendo o trabalho sujo de limpeza étnica.

Qualquer que tenha sido seu propósito de seus produtores o ULTIMO SAMURAI é uma obra de arte. Como tal não deixa a desejar. Mas o filme deve ser assistido com reservas.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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