REVISTA CRIAÇÃO
UM ADMIRÁVEL INFOMUNDO NOVO

Foi recentemente lançado no Brasil "Cultura da Interface" de Steven J., que é considerado o mais influente infofilósofo da atualidade. O livro editado pela Zahar (R$ 26,00) é um bom investimento. O autor é um escritor envolvente, sabe cativar e cultivar o leitor mesclando história da informática, perspectivas atuais e futuras da era high tec e critica literária de excelente qualidade. As relações entre literatura e informática são a um só tempo a chave e o ponto alto da obra.

A princípio, ficamos tentados a comparar "Cultura da Interface" e "A estrada do futuro" de Bill Gates. Mas logo percebemos que isto não é possível. Steven J. é um ideólogo:- tateia o futuro a partir do presente e do passado. Gates procede como um historiador:- reescreve meticulosamente sua própria história - sem perder de vista os negócios futuros é claro.

Ao terminar a leitura, temos certeza de que o leitor ficará satisfeito. Apesar disto, não podemos deixar de fazer algumas observações sobre o livro.

Parece que o autor foi incapaz de deixar completamente de lado o "american way life" ao tratar de alguns temas. No último capítulo, por exemplo, o infofilósofo afirma que:-

"A mudança mais profunda vai estar ligada às nossas expectativas genéricas com relação à própria interface. Chegaremos a conceber o design de interface como uma forma de arte - talvez a forma de arte do próximo século. E com essa transformação mais ampla virão centenas de efeitos concomitantes, que penetrarão pouco a pouco uma grande seção da vida cotidiana, alterando nossos apetites narrativos, nosso senso de espaço físico, nosso gosto musical, o planejamento de nossas cidades."

Neste ponto o autor desliga o futuro do presente e do passado do homem. Nossa espécie levou milhões de anos para dominar o fogo e inventar a roda. Precisou de outros milhares de anos para transformar a explosão controlada de combustíveis fósseis em energia mecânica. Nossas cidades são o produto desta lenta evolução e, ao que se sabe, o carro não está em extinção. Assim, imaginar que a era high tec transformará radicalmente o espaço físico é um exagero.

Por outro lado, por mais que a interface passa ajudar-nos a representar o mundo de diversas formas, as gerações futuras continuarão perplexas diante dos mesmos problemas que afetam os homens desde os primórdios:- perda e morte. Não me parece que a interface possa excluir estas variáveis da vida humana, mas sou um leigo no assunto é claro.

Em outra passagem, ao tratar da corrente dominante x vanguarda, Steven J afirma que:-

"Mesmo que sob os ditames da acessibilidade do design de interface não é possível fazer arte sem uma boa medida de rejeição."

Não precisamos ser economistas para saber que as empresas que dominam o restrito mercado de aplicativos estão menos interessadas na história da arte do que nos lucros. Vide a Microsoft, que todos os anos maquia o Windows 95 apresentando-o como um novo e revolucionário produto.

Tomo a liberdade de transcrever alguns trechos de outra obra publicada pela Zahar, "A sociedade americana" de Seymour Martin Lipset, 1966, a fim de ilustrar melhor algumas questões:-

"Essa propensão dos americanos para afirmar que a nação está passando por uma importante transformação em qualquer "tempo atual" relaciona-se com uma "tendência que lhes é quase inerente para acreditarem que estamos separados definitivamente do passado como se entre hoje e ontem se interpusesse uma barreira física."

Mais adiante, Lipset, que é um importante cientista social da Universidade da Califórnia, afirma:-

"Outros autores afirmam que a América é exemplo de um país em que a mudança social não destroi o tecido da sociedade, precisamente porque é baseada num compromisso ideológico com a mudança."

Que relação pode-se fazer entre Lipset e Steven J.? Afinal, Lipset cuida de analisar os fundamentos da sociedade americana e Steven J. passeia pela literatura para tratar de uma nova tecnologia, cuja comunidade de usuários é muito maior abrangendo pessoas do mundo inteiro.

Primeiro, Lipset é uma referência indispensável para que conheçamos melhor o caráter do escritor de "Cultura da Interface". A partir de "A sociedade americana" podemos compreender melhor porque Steven J. acredita na possibilidade de mudanças na interface sem que isto afete substancialmente a dependência dos usuários desta mesma interface. Segundo, Lipset nos ajuda a perceber porque o infofilósofo desconsidera toda evolução do homem ao enfatizar o nascimento de um admirável infomundo novo.

Em seu livro Steven J. defende a tese de que o futuro da arte depende do desenvolvimento da interface. Contudo, não faz qualquer referência à oposição arte tradicional x arte digital.

A arte tradicional sempre dependeu da guerra para se desenvolver. Em decorrência dos conflitos generalizados obras, monumentos e cidades são parcial ou totalmente destruídas. Quando a paz é celebrada, vencedores e vencidos se empenham em reconstruir seu espaço urbano e social, mas os homens já não são os mesmos e suas obras refletem este novo estado de ânimo. Além disso a guerra faz os artistas fugirem ou procurarem novas oportunidades junto ao inimigo. Com isto velhas concepções estéticas acabam se renovando e a arte também. O resultado deste processo é o surgimento de obras híbridas, em que o velho e o novo se fundem até que uma nova corrente estética se consolide.

As guerras econômicas entre a Microsoft e suas rivais são parecidas, mas suas conseqüências são diferentes. Nelas, os competidores não querem se destruir mutuamente. O lucro é mais importante que qualquer princípio e isso obriga supostos inimigos a manterem preços semelhantes.

"Cultura da Interface" nos sugere a pergunta "Qual o futuro da interface?" Steven J. acredita que ela se tornará uma nova forma de arte ou a forma de arte. Talvez ele esteja certo, mas os artistas plásticos continuarão a criar em suportes reais e o público certamente continuará apreciando as obras de arte passadas, presentes e futuras. A razão disto é simples:- as noções de textura, volume e profundidade na tela do computador são ilusórias, ou pelo mais ilusórias do que as proporcionadas pela observação direta da obra perfeitamente ajustada ao seu suporte material.

Além destas querelas estéticas, fica a questão "Como haverá desenvolvimento da infoarte se ela está submetida ao império do lucro das empresas de software?"

Em certo momento, Steven J. critica o jogo Sonic. Suas considerações são pertinentes, mas ele se esqueceu das profundas conexões entre este jogo e o "americam way life" O objetivo do jogo Sonic é seguir em frente. O jogo é rápido e não exige muita reflexão. É a versão infantil e digital da linha de montagem inventada no início do século por Ford. A diferença é que no modelo fordiano de produção o trabalho agregado ao produto é que se desloca pela esteira e não o trabalhador. Este fica parado, executando automaticamente as mesmas tarefas, exatamente como o jogador de Sonic diante da tela.

Como já dissemos, Steven J. concebe a interface como a nova forma de arte. Seguindo seu raciocínio devemos nos perguntar "O que vemos na tela?" A resposta é óbvia: vemos uma pintura.

Em "Conceitos fundamentais da história da arte", Heinrich Wölfflin, nos ensina que existem duas formas básicas de pintar: 1) fechada, em que a pintura é definida, uma imagem perfeita de si mesma e; 2) aberta, a pintura não está presa a limites definidos.

Atualmente a interface é uma pintura fechada. A existência de limites definidos entre os icones é fundamental, porque possibilita a perfeita interação homem/máquina. Seria impossível usar o computador se a interface fosse ambígua, se os ícones sugerissem diversas finalidades.

Logicamente a pintura aberta e a interface parecem água e óleo:- uma excelente não mistura. Isto limitará a atividade dos designers e a nova arte. Paciência, até os gregos no período clássico tiveram seus cânones mais ou menos fixos. A diferença é que aquilo que para os gregos era mera convenção estética, para os infoartistas do futuro será uma limitação técnica.

Pronto, agora o leitor já pode comprar "Cultura da Interface" e tirar suas próprias conclusões. De quebra pode, ainda, dar mais asas à sua imaginação com "A sociedade americana" de Seymour Martin Lipset, e com "Conceitos fundamentais da história da Arte" de Heinrich Wölfflin. Só não sei se encontrará edições atualizadas destes dois últimos livros.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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