REVISTA CRIAÇÃO

O VIDENTE

As guerras americanas tem sido uma fonte inesgotável de matéria prima para o cinema. A cada novo conflito armado multiplicam-se os filmes que pretendem transmitir aos telespectadores versões, explicações ou críticas do mesmo.

Os filmes americanos da II Guerra Mundial são absolutamente esquemáticos. Os nazistas são sempre os vilões, os americanos os mocinhos. As ações geralmente são desencadeadas por causa dos vilões e no final, apesar de todas as dificuldades e sofrimentos, os mocinhos levam a melhor porque sua causa é justa.


Em O RESGATE DO SOLDADO RYAN, por exemplo, os soldados americanos se recusam a executar um prisioneiro de guerra e o libertam. Algum tempo depois o ex-prisioneiro retorna à cena junto com seus companheiros nazistas e mata friamente um daqueles que o libertou. No filme A BATALHA DE MIDWAY a arte nem se deu ao trabalho de mimetizar a realidade. As filmagens feitas pela marinha americana da batalha naval que destruiu a frota japonesa constituem o clímax da película. As cenas nos porta-aviões foram feitas com marinheiros de verdade.


Ao contrário da II Guerra Mundial, a Guerra no Vietnan provocou uma profunda divisão na mídia e na sociedade americana. Os protestos contra a guerra se tornaram uma realidade no fim da década de 1960 e a mídia não se cansou de mostrar as contradições e abuso de um conflito apoiado por alguns e indesejado por muitos americanos. A filmografia desta guerra é bastante rica.


O filme HAMBURGUER HILL dá uma versão do conflito sob medida para os que defenderam e lutaram. Os soldados americanos sofrem bastante para conquistar uma elevação que é defendida por tropas norte-vietnamitas mais numerosas que estão bem armadas e treinadas. A retórica crítica da mídia é interrompida por um soldado americano logo depois de uma derrota em que vários de seus companheiros foram mortos. Assim o cinéfilo é levado a simpatizar com sua ira, que seria justa diante da atitude nada patriótica dos jornalistas.


Em FOMOS HERÓIS procurou-se recriar de maneira detalhada, criteriosa e absolutamente realística do primeiro confronto entre tropas americanas e vietnamitas no Vietnan. O processo de criação e treinamento das tropas aerotransportadas por helicópteros e a história familiar dos soldados americanos constituem a primeira parte do filme. A segunda parte é ocupada pela batalha, em que a capacitação, determinação e eficiência das tropas dos dois lados foi ser devidamente representada. Mas ao contrário dos americanos, os vietnamitas não têm história familiar. Por isto apenas a dor das mulheres americanas ganha relevo à medida que os soldados dos dois lados começam a morrer. A justiça ou não da agressão a um país distante que nunca colocou em risco os interesses americanos no território dos EUA não foi sequer questionada.


APOCALYPSE NOW é um dos melhores filmes sobre a Guerra do Vietnan. As motivações do conflito não são questionadas. Entretanto, os absurdos de uma guerra insana funcionam como um excelente discurso contra a mesma. No filme, a missão dos americanos não é combater vietnamitas, mas um coronel americano que criou uma milícia que se dedica à todo tipo de barbaridade. À medida que se aproxima de seu objetivo, o herói passa por diversos locais onde tropas americanas se divertem, se corrompem, se drogam ou apenas lutam de maneira desorganizada para preservar uma ponte que não leva a lugar algum.


Apesar das diferenças, sutis ou gritantes, que existem entre os filmes americanos que abordam a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnan os mesmos tem algo em comum. A luta sempre ocorre num local distante diante de um inimigo que é, no mínimo, desumanizado. O nacionalismo americano está sempre em evidência. Quando não o nacionalismo através da representação da justiça do conflito, o filme ou não legitima o nacionalismo dos inimigos ou questiona o nacionalismo belicoso americano através do nacionalismo dos pacifistas americanos. Você já se perguntou por que nos filmes de guerra americanos nunca existe um pacifista alemão, japonês ou vietnamita?


Desculpem-me a digressão. Mas a mesma era necessária para que pudesse mostrar a diferença entre os filmes da era da Guerra do Terror e os dos conflitos precedentes.


Apesar de rocambolesca, o enredo de O VIDENTE é bastante singelo. Um americano que tem habilidade de prever seu próprio futuro usa-o em benefício próprio. Chama a atenção das autoridades e acaba se tornando o pivô de um conflito entre estas os terroristas que pretendem detonar uma bomba atômica dentro dos EUA. O herói foge pois não quer ajudar o governo. Sua amada é aprisionada pelos terroristas, que pretendem utilizá-la para impedir que ele ajude o governo a prever o atentado.


Quando prevê a morte da amada, o herói usa todas suas habilidades para ajudar os agentes do FBI a derrotar os terroristas e a libertá-la. Após ter sucesso se dá conta que cometeu um erro porque a bomba atômica explode e mata a todos. Então o filme retorna ao ponto em que ele foge dos agentes e, prevendo o que ocorrerá, ele voluntariamente ajuda o FBI desde que sua amada fique em segurança.

O VIDENTE é um exemplo típico da Guerra do Terror. Ao contrário da II Guerra Mundial e da Guerra do Vietnan, a destruição ocorreu ou vai ocorrer dentro e não fora dos EUA. O filme não se destina a valorização ou crítica de um nacionalismo que existe, mas a construção de um novo tipo de nacionalismo. É por isto que a jornada do herói se interrompe quando ele decide colaborar voluntariamente.


Nos filmes O RESGATE DO SOLDADO RYAN, A BATALHA DE MIDWAY, HAMBURGUER HILL, FOMOS HERÓIS e APOCALYPSE NOW a história americana está sempre presente, a dos inimigos ausente. Em O VIDENTE o presente e o futuro dos EUA estão em construção, mas sua própria história está ausente.


Porque os terroristas querem jogar uma bomba atômica os EUA? Os motivos deles não são revelados no filme. Tenho a impressão de que isto ocorreu deliberadamente. A perversidade dos terroristas tinha que ser imotivada, porque se eles tivessem motivos os mesmos introduziriam a história americana recente na trama.


Contudo, os roteiristas e produtores de O VIDENTE não quiseram ou puderam fazer qualquer referência à brutalidade da política externa americana para não problematizar a construção de um novo nacionalismo por adesão automática e irrefletida. Se narrassem o que as Forças Armadas e Especiais do Império tem feito ao redor do mundo com a ajuda da CIA a ação dos terroristas seria motivada. Mas a motivação dos terroristas poderia ser considerada justa dentro e fora dos EUA.


Sendo assim podemos concluir que a Guerra do Terror está a provocar uma guinada estética no cinema americano. A criatividade cinematográfica americana não está mais só mutilando a história, está sendo mutilada pela mesma.


Quando a URSS desmoronou, Francis Fukuyama defendeu a tese de que estávamos diante do fim da história. Ele tinha razão, mas não pelos motivos que expôs. O fim da história está a ocorrer aqui e agora porque a Guerra do Terror não comporta crítica, não permite a construção de um nacionalismo que não seja irreflexivo, desprovido de qualquer consciência crítica. Curiosamente, o nacionalismo americano em construção no filme O VIDENTE é tipicamente soviético.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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