REVISTA CRIAÇÃO

VIOLÊNCIA PUNK, POLICIAIS E CAPITALISTA


Recentemente ocorreu mais um caso de violência punk. Como de praxe a imprensa fez um barulho danado.

A legislação em vigor considera crime a agressão e proíbe a "pena de morte". Portanto, sob o ponto de vista legal, os punks que foram presos esta semana estão na mesma situação que os policiais que se sentem no direito de executar suspeitos. Mas a reação da sociedade às gangues de garotos e de policiais não é a mesma.

Quando dois ou três punks se envolvem num caso de agressão a mídia dá uma atenção imoderada ao caso. Os jornalistas parecem ter uma predileção pela barbárie, tanto que a fomentam ao não mostrar as condições em que aqueles garotos se transformaram em punks violentos.

O ser humano é naturalmente gregário, político como diria Aristóteles. Vivemos em grupos. A solidão repugna tanto à nossa psique que o homem que vive isolado acaba fracionando sua personalidade para poder suportar a solidão através da conversação consigo mesmo. O filme “O NAUFRAGO” é uma belíssima representação desta nossa característica humana.

Nos mocambos, palafitas, favelas, cortiços e recantos miseráveis e degradados de nossas cidades os garotos pobres criam seus grupos para poder tolerar a vida terrível que lhes foi reservada. Seguem, portanto, sua natureza. Mas há um problema: os punks não fazem parte da sociedade ou com justa razão sentem-se excluídos dela porque não podem consumir. A sociedade capitalista é centrada no consumo, então além de grupos os pobres punks da periferia criam seus próprios valores e passam a cultuá-los como se fossem bons e válidos. O resultado é previsível: quando grupos rivais entram em contato o conflito é inevitável.

O processo de formação destes grupos de punks é idêntico ao de policiais homicidas que se sentem no direito de aplicar a "pena de morte" com a conivência de administradores, legisladores e juizes. Mas ao contrário dos punks, os grupos de extermínio encontram aprovação social. A adoração neurótica que o filme TROPA DE ELITE conseguiu em várias camadas da população é uma prova clara de que a sociedade brasileira está doente. Curiosamente, os brasileiros que desejam que o Capitão Nascimento se torne um modelo para os policiais de verdade, como o Luciano Huck e seus defensores, não percebem que o personagem é que é mimético.

Os americanos despejam bombas ao redor do globo e acreditam que estão pacificando áreas degradadas. Nossa política externa não é baseada no uso da força. Mas nossa política interna tem sido bem parecida com a política externa dos gringos. Acreditamos que a brutalidade policial é a solução para as áreas degradadas. É por isto admitirmos a violência policial e deploramos a conduta dos punks. Ambos os grupos cometem crimes, mas como os americanos nós também não conseguimos parar de DUPLIPENSAR. Assim algumas condutas são consideradas "mais criminosas" que as outras.

Aceitamos com naturalidade a degradação de nossas cidades. Mas não conseguimos conviver com os grupos sociais que se formam como resultado da exclusão da sociedade de consumo. Ao invés de tentar resolver o problema econômico-social das áreas degradadas apelamos para o Capitão Nascimento enquanto grupos de extermínio já realizam na prática as torturas e execuções que são encenadas no cinema. Não são só os punks que estão doentes. Nós também estamos, mas não sabemos ou não queremos admitir.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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