REVISTA CRIAÇÃO

X-MEN 2 NO CARANDIRU


Talvez o cinéfilo esteja se perguntando:- mas o que pode haver de semelhante entre Carandiru e X-MEN 2? Nada! Afinal, o primeiro pretende ser um retrato cruel da realidade carcerária brasileira e o segundo é apenas mais um enlatado americano.

Entretanto, o tema central dos dois filmes é o mesmo:- discriminação e violência. Como os dois filmes tem mais semelhanças que diferenças, justifica-se a análise comparativa de ambos.

Os detentos brasileiros, tratados como escória sem direitos apesar da CF/88 garantir a integridade física e moral do detento, rebelam-se e são eliminados como bestas feras. Os jovens mutantes também são feras, só que dotados de poderes especiais. Na realidade, todos são perseguidos e maltratados. Os presidiários encontram a redenção à bala, os mutantes encontram a salvação e a liberdade na marra. Morte para uns e glória para outros. Não fosse pelo fato de que as autoridades públicas e parte da sociedade brasileira apoiaram secretamente o massacre do Carandiru, ficaria até parecendo que a vida real nunca imita a arte.

Quando inaugurado, o Carandiru foi considerado o maior e melhor presídio da América Latina. A solução para o problema da segurança no Estado de São Paulo. Um exemplo a ser seguido. Por que se transformou num problema?

O filme Carandiru não responde esta pergunta. Nem aborda o processo pelo qual o maior e melhor presídio do Brasil se transformou num depósito de lixo humano. A finalidade da arte não é questionar a realidade, mas apenas mostrar como ele é, poderia ou deveria ser.

Nesse sentido, X-MEN 2 e Carandiru são metáforas da realidade. Ambos são desprovidos de história. Apesar de narrarem fatos reais e fictícios escondem as condições que desencadearam seus princípios. X-Man por uma necessidade lógica. Carandiru por comodidade ontológica. Afinal, de que adiantaria o expectador saber que o presídio foi superfaturado, construído num tempo em que se acreditava no maior como melhor. A verdade nua nunca rendeu bilheteria, nem votos.

O machão Wolwerine e a bicha interpretada com maestria por Rodrigo Santoro se equivalem. Ambos procuram um futuro sem terem passado. Desajustados, diante de um mundo confuso e turbulento, os dois encontram no amor proibido a única tábua de salvação. O canastrão perde a mocinha e a bichinha ganha a felicidade nos braços do amado e de quebra ainda escapa do massacre. O cinema está mudando? Creio que não. Está apenas se adaptando às novas necessidades e exigências da platéia.

Os antagonistas em X-MEN 2 são conhecidos e contracenam com os heróis. Carandiru é um filme sem heróis, sem antagonista. Os presidiários são vítimas do sistema. E o sistema nunca tem rosto. Talvez tenha sido por isto que o diretor poupou o governador de São Paulo, o juiz corregedor dos presídios e o comandante da PM de fazerem uma ponta no seu filme. As autoridades públicas brasileiras sempre agem sem um plano. Dão ordens e tratam de transferir a responsabilidade caso as coisas saiam errado.

O que é mais belo? O cenário impecavelmente limpo e brilhante de X-MEN 2 ou as paredes sujas, emboloradas e pichadas de um presídio abandonado à própria sorte durante décadas. Difícil escolha. O maravilhoso e o horrendo são igualmente belos porque chocam. A realidade vivenciada pelo expectador é sempre um pouco pior que a ficção e melhor que a vida carcerária (desde que você não seja um detento é claro).

Depois de assistir Carandiru e X-MEN 2 o cinéfilo chegará à conclusão de que homens e mutantes são parecidos. No final todo mundo quer se salvar. Só quem não se salva mesmo é a História do Cinema, que continuará a registrar como ótimos filmes apenas passáveis e bons filmes como produções terceiro-mundistas decadentes. Paciência... Assista Carandiru no cinema e alugue X-MEN 2 quando chegar as locadoras.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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