REVISTA CRIAÇÃO

X-MEN 3


Cada civilização lega à humanidade algo específico, pelo qual se pode definir sua profundidade e relevância.

Os gregos nos legaram a poesia épica de Homero, com seus deuses antropomórficos ciumentos e terríveis, sempre prontos a interferir nos conflitos humanos, seus heróis irascíveis ou ardilosos e feitos memoráveis que ecoam até os dias de hoje. Legaram-nos, ainda, as tragédias em que os labirintos da personalidade humana e da sociedade são explorados. E por fim nos legaram as filosofias, a que sempre retornamos qualquer que sejam nossas preferências intelectuais.

Os romanos nos legaram a arte da guerra, as sutilezas do Direito e, principalmente, a comédia latina. Prova da vitalidade daquele mosaico cultural e religioso que dominou o mundo, profundamente influenciado pelas suas mazelas e capaz de rir de si mesmo.

A civilização grega resiste através dos monumentos literários que deixou. Roma foi saqueada, mas ainda impera através de seu monumento jurídico que resiste ao tempo. Em razão de vivermos num tempo em que a potência do ocaso trava sua guerra global contra o terror uma pergunta incomoda a todos os seres humanos. O que nos deixarão os americanos após serem consumidos pelos cogumelos que despertaram na II Guerra Mundial? A resposta é absolutamente óbvia, os heróis de HQ que estão sendo imortalizados no cinema para ganhar a posteridade.

Mas quais são as características destes que podem ser considerados os mais legítimos filhos eternos da cultura americana? Os heróis de HQ não são humanos. Conservam traços de humanidade, vivem entre nós, mas não são humanos. Também não são divindades, pois eram homens antes de se transformarem ou se tornaram homens após a metamorfose que conservou características sobre-humanas. Seus poderes especiais não lhes foram dados por Deus, nem foi a divina providência que os consagrou. Na grande maioria das vezes os super-heróis são produtos de acidentes físicos, químicos, biológicos, estelares, etc...

De fato, em razão de sua origem, os bizarros heróis de HQ nos auxiliam a compreender as deformidades da civilização americana. Nos EUA ciência e religião se uniram da maneira curiosa e perversa. A ciência fornece o impulso para o desenvolvimento de produtos e processos que revolucionam continuamente a economia mundial. A religião não só justifica a sede de conhecimento como santifica as pesquisas e descobertas tecnológicas. Todavia, o desenvolvimento tecnológico fomenta a criação de armas cada vez mais destrutivas e desumanas enquanto a religião fornece o fundamento para as guerras justas. Assim, às deformidades dos próprios americanos podem ser sobrepostas as deformidades de seus heróis de HQ.

Quando a chama da civilização americana se apagar, restarão apenas os heróis de HQ. A grande pergunta é se eles sobreviverão aos seus criadores, se ocuparão um lugar de destaque no Panteão da Cultura Universal ao lado da poesia épica, filosofia e tragédia gregas e do direito romano. Pessoalmente acredito que não, mas mesmo assim continuarei a assistir filmes como X-MEN 3, porque gosto de efeitos especiais e nutro um verdadeiro interesse por civilizações mortas ou prestes a conhecer seu fim.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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