REVISTA CRIAÇÃO
 

Bem vindo, leitor, ao ZEROMUNDO, pois “A EXISTÊNCIA ESTÁ EM OUTRO LUGAR." (OBS no final). A Prosa poética desenvolvida no livro “ZEROMUNDO” (em véspera de ser publicado), buscar atrair os sentidos do leitor para um conhecimento da vida ditado pela presença do poeta presença no mundo, onde tudo está se relacionando com tudo. A narrativa permitida pela prosa poética colide com o modo racionalista de conhecer as coisas (que separa o sujeito da realidade concreta), pois no ZEROMUNDO a experiência emotiva não está separada do contexto da vida real em que está inserida. A preocupação do autor em buscar na realidade concreta “o outro lugar da existência” se distância dos surrealistas que buscaram nos sonhos esse mesmo outro lugar, porém não deixar de ser surrealista quanto à forma de expressão, que segundo os critérios do trabalho do autor, os poemas são “QUADROS” surrealistas.

“2o. QUADRO

Foi difícil esperar pelos dias das horas nas letras, mas as pessoas partiram em troca dos entre tantos desperdiçados. A comunicação não era para pessoa alguma, mas pude me perceber nas notícias, enquanto se manifestava o entendimento nas tragadas de um cigarro sobre uma frase ouvida fora da saúde. Deus tudo sabe e imaginação não presta para dele se esconder. O absurdo era igual ao mistério, embora fosse óbvio o movimento da nossa identidade pelas vitrines do Bom Retiro, mas eu queria lutar e separar o que é de você em mim e de tudo aquilo que dos outros nos alcança, para me colocar na balança da farmácia e lembrar que meu umbigo foi leito da inquieta insônia de teu ventre. Você está ali e quase aqui. Novamente veio, sem véus, prestando atenção na descrição da espera em que te faço mais linda (que não escreverei para não permitir interpretações sobre meu do meu sorriso de desejos e conclusões que não posso descrever). Enquanto a distância ia desaparecendo, nem percebemos que já tínhamos desviado de um buraco na calçada de nosso caminho. Eu sei que seu pensamento ia se tornando visão sobre o engano de tantos que observam nossa alegria. Nossas palavras eram pedidos de conclusão sobre o número de barras de ferro da cerca que divide esse lado do Jardim da Luz. Nós sabíamos que todos os sons das buzinas dos carros, do primeiro e do segundo toques do sino da igreja, do vento em todas as rosas e árvores e em todas as asas dos passos (por onde poderíamos) ir iriam sucumbir ao som do firme propósito do terceiro toque sino da igreja que concluiu a tentativa de imaginar a fé. Então, você me beija imaginando a importância do cinza da quase noite e da garoa fina que molha seus cílios. Consigo falar madeiras em pedaços de uma caixote de frutas, num discurso de verdades sobre chaminés e néons refletidos no asfalto molhado em uma noite sem lua de ar fresco. Você me toca num onipotente carinho, sem figura, sem descrição, com levezas silábicas e lábios, levando o só o meu sentir para o quente completo do inverso diverso das minhas mãos que buscavam em seu rosto a mais complexa poesia do temor de, num segundo, você desaparecer entre elas (pois isso não custava nada para seus dons de mulher ao dizer um adeus feliz com a ansiedade de quem vai para um mundo novo voando numa palavra). Você ficou naquele início de uma noite onde, por falta de coincidência ou de ficção mais romântica de um fim de chuva, duas pessoas se beijaram ao saírem de um café com os sapatos desamarrados.”

“4o. QUADRO

A boca voraz, que de dentro come para si o meu interior, insistentemente repete, ao sinal do menor sonho, suas mordidas e mastigadas famintas sobre o meu sentir em tudo para o qual os meus olhos se fecharam na ilusão de evitar a paixão. Assim, você me apareceu como uma presença do sempre vasto que me faltava. O inexplicável perfeito. Seu perfume me arrastou com seus ares para um reflexo de espelho vermelho de esmalte de unhas que ajustavam um fecho de brinco. Num instante todos meus lugares de fuga, no dia e na noite, agora estavam sob o seu olhar. Lá estávamos em pleno futuro invisível nos observando entre o translúcido verde de uma garrafa “pet” de uma obra reciclada, num momento agora, que ficou entre eu e você. Sem dar chance alguma à arte, como o beijo dado na págima de seu diário, você me transformou num feliz fato adesivo e colorido de sua vida sem data e hora de todos os dias. Havia uma certeza de que nunca estaríamos juntos, nunca no mesmo sentido, seriamos roupas estendidas no varal sob a chuva, pois não iríamos resistir de esquecer de alguma coisa antes do início do trovão da chuva forte que nos fez pensar e planejar onde cairiam os primeiros pingos. O vidro do carro estava embaçando o néon da cidade que anunciava a noite e sua voz que vinha num sorriso. Não quero dormir, pois o sonho pode afastar esse momento. Antes de você meu desejo não existia. Eu sou o que te faz e te mantém viva, além da translucidez das garrafas “pet” em que ficaram escritas as letras do ar permanente dos seus olhos, para que só eles vejam, meus poemas no tom vermelho do seu rosado mais íntimo. Não se preocupe com o mar perturbado da minha alma, de onde vieram as garrafas “pet” da arte de nosso encontro, isso ainda será ser reciclado.”

“7o. QUADRO

O maior grito acontecerá quando sentirmos o crepúsculo (Não durará para sempre). Será um dia, um dia perdido, sem ser diferente, dia qualquer e, de súbito, ao olharmos as pessoas que vão passando com os dias delas, desconfiaremos. As nuvens se formarão e passarão rápidas com essa vida e com a gente. Estaremos, sempre denunciando, sentido o crepúsculo, vendo o que os outros não vêem, dançando nossa música e extraindo o tudo e o nada do giros do coração. Como podemos nos explicar se o crepúsculo já findou com nossos beijos e abraços? Por que em tantos momentos do mundo, nosso início (talvez não passe de uma história de janela) seja o conhecimento de nossa desilusão com a eternidade? Hoje, temos o universo de meias-luzes, nosso cheiro e seus batons beijados, talvez, amanhã, estaremos encostando nossas palavras nas ruas dessa cidade e, talvez, não tenhamos cabeça para olharmos por cima dos ombros ou para ficarmos calados. A luz, a luz dessa noite, a beleza de seus percursos, as ondas de sons do mar de nosso leito, desaparecerão... como impediremos o desaparecimento dessa noite? Por essa dúvida choraremos acreditando estarmos indo para casa. Como se você fosse eu e eu fosse você. Somos felizes um pelo outro nesta nova música (quantas já tocaram?). Venha, fique aqui junto de mim para a composição dessa janela, vamos sair do anonimato, desse nosso silêncio, sejamos livres, um casal de estrelas no céu de uma janela, não me basta estar com você se vivermos aqui, como vento nas cortinas (quem poderá nos identificar entre tantas estrelas e luzes dessa cidade?) Não sei, para onde caminham e olham os homens que passam lá embaixo, talvez tudo o que vejam ou que desejam ver tenha ficado do lado de dentro desse quarto. Um relampear! Para onde iremos agora, garota? Não revele para ninguém o que nós não sabíamos até chegarmos até aqui, ainda é muito sentido. Estamos sob o mesmo tempo, em outra música (o relógio é sempre ideal). Ouvimos um estrondo, vejo a porta (Será que despertamos?). Não durou tanto assim (Será que nos olhamos nos olhos?). Para onde foi você, sem revelar se vivi ou sonhei?”

“9º. QUADRO

Teu ar de respiração te veste de natureza. Nos teus olhos o belo da noite e do espírito formam a paisagem que atravesso com meus lábios levados pelas horas que brincam, em saltos, até o horizonte de teu umbigo. O roçar de minhas mãos soa em pequenos risos que vasculham teu jardim de pêlos e carne com a bondade dos vampiros, enquanto sinto o calor do perdão dos deuses nos teus seios, ébrios de indiscreta perfeição pela insolência de minha boca. Minha solidão se embriaga no teu palácio como um escravo feliz que sustenta sem descanso seus quadris que vagam entre o brilho de uma estrela morta e um pássaro que canta em sua viagem pelo esquecimento de purezas e pelo sonho de belezas. Meu olhar infiel vê ao longe seu doce mundo de móveis e lençóis polidos de dormir, mas tudo vai se perdendo em suas ondas de pernas e ventre que batem e batem em meu cais, como se fosse ele, com sua extensão, culpado pelo mar de seus desejos. Eu me abandono como executor da luxúria de seus ancestrais que expiam seus modos de Vênus louca fazendo de baton o vermelho mais sensível e rígido de minha carne. Comecei a vagar no deserto de gritos do céu da tua boca na busca de um templo vasto para guardar os gemidos e suspiros que lhe escaparam, até que meu corpo se viu preso nos seus interstícios mais profundos. Fechei os olhos e me vi solitário no suor fundo dos teus seios, ouvindo a canção do litoral banhado por um sol verde que enchia as cortinas. O universo inteiro se aconchegou como um amável gato preto e, dos pés a cabeça, senti uma fina e sutil explosão que suas unhas vermelhas delicadamente provocava em minhas costas impedindo-me de morrer ou nascer numa condenação ao inferno de Dom Ruan. Quando abri os olhos minha mente estava perdida nas carícias de seus dedos em meus cabelos e o aroma que inundava os meus pulmões era o exótico perfume de SEXO. (EU NÃO ME LEMBRO SEU NOME).”

“10o.QUADRO

Qualquer ponto depois da liberdade pode ser um final de poesia ou um vão de desculpa para a fuga. Eu me lembrei que depois do baile, o relógio parou antes da chave, antes da passagem (uma distração do tempo) e suas mãos apareceram antes do espelho. Uma vela acendeu-se numa primeira alucinação. Eu voltei! Chovia sobre as medalhadas da minha honra que encontrei nos degraus, mas as deixei lá para que as estações do ano continuassem a consumi-las e aos degraus. Eu não parti, foi uma onda daquelas que se vê no mar, daquelas que arrasta a bagagem dos náufragos até uma praia, daquelas que vem e desfaz os castelos de areia da infância, que vem e que vão para um longe possível, sobre a lua ou sob o sol. Foi só um momento em que eu já não estava mais aqui. Confesso que não pude deixar de seguir o que os ponteiros dos relógios me falavam: - Você é Humano, tem um cigarro em seus lábios e escreveu por muito tempo poesias do abandono sob uma garoa fria, debaixo de um manacá, o único manacá que existe na imaginação que viveu naquela pequena praça cercada de sinos de igrejas. Confesso que escrevi para você poemas de atrasos e transpirações de sonhos futuros que, num quase sempre, os deixava com uma rosa sobre o branco banco de mármore, num movimento livre de me comunicar com você (eu não podia deixar de sentir os efeitos da realidade de seu perfume...nem tudo passa). Tenho fotos de quase tudo para te mostrar, tudo era tão gratuito, infinito e simples no foco da câmara, mas a história é pequena nos olhos de quem ouve ou lê. Ascendi mais três velas e você me perguntou a razão de tanta emoção na terceira vela. Foi difícil roer a beleza das palavras que pudessem me fazer expressar. O máximo que pude foi desabafar disfarçando arrumar aquela noite de chuva num vaso de vidro. Percebi em teu olhar o quanto eu tinha invadido nuvens de anjos no espelho mudava diante de seu rosto, pois você via minha primeira lágrima com a compreensão de que a terceira vela era para iluminar a janela e orientar, até nós, a parte de mim que ficou lá no tempo e fora das fotografias.”

“11O. QUADRO

Com limão na melodia o dogma transforma o casamento num banquete de circo-cárcere burguês, sem emoção e sem vento, onde se dança pisando o passado dos risos infantis do sol humano para, no dia seguinte do dia a dia, alguém varrer as migalhas, o pó e recuperar o brilho do assoalho e o resto de cada final feliz. Onde está seu violino, agora? Por que transformamos a música em palavrismos de amor com dois pesos e duas sub-medidas sobre a autoridade da solidão de cada um? Tocar só, era uma saída? Voamos tanto, mas era inevitável que sentíssemos a chuva sobre nossas asas, mesmo assim prosseguimos por ruas tolas reparando nas pessoas tristes procurando entender nossa breve imortalidade. Seu cheiro ficou em mim, desde que fiquei preso às suas ancas que vagavam no mar que se impunham em ondas que se quebravam nas pedras doces de seus escondidos conteúdos de medo em ouvir nossos beijos banhados de verbos tezudos de amar sob o céu de Dalvas que explodiam desde a criação. Eu me lembro! A água sempre foi inteira, supera tudo e sempre é toda em cada porção para inspirar a todos.Vivo hoje num telemesmo modo de viver do cinema, repetindo e repetindo todas as evidências até alcançar o inverso do verso das minhas lembranças de Abrolhos, do “não”, do “já”, do sal e da quilha das nuvens que iam lá no céu. Não é um saudosismo, é abrir um pedaço de papel e libertar minha alma pela janela do céu e observar o entendimento das pedras sobre o sol. Não respiro mais fumaças de culpas de um poeta silencioso, nem misturo sonhos urbanos em copos de cerveja e nem ouço mais os alegres amargos sons de bares. A sua falta foi um começo que traduzi numa página em branco colocada dentro de uma garrafa de vinho que lanço ao mar para você, porém ela retorna para mim, todos os dias, sem a folha em branco. Eu sei, não estamos perdidos, não precisamos de mensagens, a mesma garrafa lançada ao mar nos basta nas praias dos continentes nossas vidas urbanas.”

AUTOR: BENEDITO LIBÉRIO BERGAMO

(libbergamo@yahoo.com.br)

OBS: Manifesto Surrealista. André Breton. – 1924: “O surrealismo, tal como o encaro, declara bastante o nosso não-conformismo absoluto para que possa ser discutido trazê-lo, no processo do mundo real., como testemunho de defesa. Ao contrário, ele só pode justificar o estado completo de distração da mulher em Kant, a distração das “uvas” em Pasteur, a distração dos veículos em Curie são a esse respeito profundamente sintomáticos. Este mundo só relativamente está à altura do pensamento, e os incidentes deste gênero são apenas os episódios até aqui mais marcantes de uma guerra de independência, da qual tenho o orgulho de participar. O surrealismo é o “raio invisível” que um dia nos fará vencer os nossos adversários. “Não tremes mais, carcaça.” Neste verão as rosas são azuis, a madeira é de vidro. A terra envolta em seu verdor me faz tão pouco afeito quanto um fantasma. VIVER E DEIXAR DE VIVER É QUE SÃO SOLUÇÕES IMAGINÁRIAS. A EXISTÊNCIA ESTÁ EM OUTRO LUGAR.” – tradução: Luiz Forbes – editora Brasiliense- SP, 1985, pág. 81

>>A CRIAÇÃO
 
>>Literatura
>>Textos Literários
>>Colaboradores
>>Mitologia
>>Cinema
>>Cibercultura
>>Humor
>>Outros Escritos
>>Fotos
>>Contato
>>Web Master
 
 
 
 
 
LITERATURA TEXTOS LITERARIOS MITOLOGIA CINEMA CIBERCULTURA OUTROS ESCRITOS